23 de novembro, 2005 - 07h57 GMT (05h57 Brasília)
“Deixa suas mãos mais lindas e sedosas”. Esse aí, ou variação semelhante, trecho de um dos primeiros textos meus publicados e lidos por milhares de pessoas. Ou ignorado.
Dei meus primeiros passos no mundo das letras em publicidade. Na agência J.Walter Thompson, de grande reputação mundial até hoje. Um dos clientes era um fabricante de produtos de beleza.
Traduzi ou adaptei a maravilha que eu, pouco ligando para aquele dizer de que elogio em boca própria é vitupério, acabo de citar. Muito inferior a “as armas e os barões assinalados”, bem sei, mas cada um se vira e se sai como se pode.
Eu e a publicidade, a uma certa altura do caminho, onde por certo havia uma pedra, nos desentendemos e eu deixei o cuidado das mãos, dos cabelos, da pele para outras pessoas.
Também nunca perguntei para ninguém – homem ou mulher – como conseguira mãos tão lindas ou sedosas. E se fosse graças a meus esforços?
O que há é que, como bom, ou medíocre, ex-publicitário, não acredito em anúncio. Uma engenhoca inventada pelos ingleses vem agora me dar respaldo científico.
Parece que existe aí um par de óculos ligado a algo parecido com um rádio que vai registrando tudo que um cidadão (londrino no caso) vê em matéria de reclame num dia normal: do jornal e revista que folheia, dos cartazes que passam diante de si na rua e no metrô, dos comerciais que pontilham sua telenovela preferencial.
Num dia comum, o pobre coitado do cidadão ou cidadã, inclusive este vosso criado, tem diante dos olhos cerca de 3 mil e 500 mensagens de marquetingue. Das quais 99% nem criam impacto, nem deixam vestígio de sua existência.
Em vez de gastarem uma fortuna com o aparelho e a pesquisa, era só me ligar que eu explicaria tudo. Com minhas mãos não mais lindas ou sedosas, mas calejadas de experiência.