18 de novembro, 2005 - 15h02 GMT (13h02 Brasília)
Eu enchia a boca há meio século quando dizia que morava em Copacabana e, além do mais, de frente para a praia.
Eu encho a boca hoje em dia quando dou o nome de meu bairro: Kensington e Chelsea. Assim mesmo, de cano duplo e sem hífen.
É um dos poucos bairros que vem precedido, nas placas com os nomes das ruas, de “Royal Borough”, indicando tratar-se de bairro real, isto é, conta com o patronato da Rainha.
Foi criado em 1965, acoplando as duas localidades de conotações aristocráticas, a primeira, e literárias, a segunda, e, segundo o recenseamento de 2001, sua população beira as 160 mil pessoas – tudo gente boa, gente fina.
Isso tudo me sai caro em imposto predial, mas tenho lá minhas compensações: uma porção de gente de bons dentes e bem tratadas garras afiadas unida em defesa de sua comunidade, pois comunidade somos e seremos sempre.
Há um pequeno problema a nos aborrecer agora. São esses estrangeiros ricos e famosos, inclusive magnatas árabes de real estirpe e gente que não acaba mais que ganha sua boa vida em Hollywood ou nos estúdios de gravação. Madonna é o exemplo que nos norteia.
O que é que essa senhora está querendo fazer com o bom nome do bairro? Por que não fica em Beverly Hills ou idílicos arredores?
Confesso que há mais que um pouco de bairrismo em minha atitude, que creio ser também a de meus companheiros “bairristas” (em seu melhor sentido).
Mas precisamos manter a tradição que, apesar de ter oficialmente apenas 40 anos, gabamo-nos de ser altaneira e careira como o quê.
Há 90 mil residências em Kensington & Chelsea (o E comercial é puro charme) e, destas, 7 mil e 200 são listadas como segunda residência. A mim, que luto para me manter em minha primeira residência, a coisa já cheira a desaforo.
Os habitantes do idílico bairro no qual desempenho meu orgulhoso papel estão prontos para a luta. Vão se bater agora nos labirintos burocráticos para defender a honrosa coalizão a que pertencemos. Ninguém me convidou para reunião nenhuma. Estarei no entanto presente a todos os embates. Ao menos espiritualmente. Já que é mais espiritualmente – confesso – que pertenço a Kensington e Chelsea.