11 de novembro, 2005 - 11h30 GMT (09h30 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Aos 81 anos, Jimmy Carter segue infatigável para provar que é o melhor ex-presidente americano da história, em uma competição cada vez mais aberta com o seu colega democrata Bill Clinton, com o qual nem sempre teve relações fraternais. Seu vigésimo livro desde que deixou a Casa Branca em janeiro de 1981 trata da intersecção entre política e religião, um tema presente e desconfortável para os democratas.
Carter, porém, se sente confortável para criticar os líderes religiosos afinados com o Partido Republicano, pois ele se considera um "cristão conservador". Quando concorreu em 1976, Carter assumiu abertamente que era um "renascido" ("born-again").
Toda sua vida ele foi um batista devoto, mas no poder Carter se distanciou dos líderes de sua Igreja quando eles advertiram que o presidente deveria abandonar seu engajamento com o "humanismo secular" e se tornar um cristão. Carter ficou chocado e diz agora que nem conhecia o sentido da expressão e seu subtexto que apenas pessoas religiosas poderiam ser humanistas.
No livro, Carter deixa claro que acredita na Bíblia e que Deus criou o Universo, mas lamenta os componentes fundamentalistas no cristianismo americano. Ele lamenta também que um inteiro setor religioso (os cristãos conservadores) tenha assumido publicamente a devoção a um partido político (Republicano), algo sem precedentes na história dos EUA.
Em parte, o ex-presidente responsabiliza a relutância do seu próprio Partido Democrata em abraçar valores religiosos para explicar a afinidade de pessoas devotas com os republicanos. É uma tendência que se agudizou nas eleições presidenciais de 2004, quando o derrotado candidato democrata John Kerry sempre parecia constrangido para assumir sua fé católica.
Em um debate intimamente associado à religião, o ex-presidente adverte que os democratas deveriam ser menos entusiasmados no seu apoio ao aborto, pois a posição tem um custo político e eleitoral em um país que apóia a prática apenas moderadamente.
Carter critica o distanciamento religioso dos seus correligionários, mas pela primeira vez em um livro investe contra um presidente de plantão. Ele não questiona a fé religiosa de George W. Bush, mas reclama da "fusão de Igreja e Estado, de religião e política", algo que colide com as tradições americanas mas que se revelou uma bem sucedida estratégia eleitoral.
Carter tampouco se exime de criticar pecados seculares do atual governo e seu livro é um vasto indiciamento da presidência Bush em questões como Iraque, impostos e déficit fiscal.
Com seus ataques diretos contra o presidente de plantão, Carter acaba se distanciando de Bill Clinton, que tem se mostrado bem mais reservado nos seus comentários sobre os republicanos e parece desfrutar uma relação muito amigável com seu predecessor, o primeiro presidente Bush. Carter, aliás, também tem um bom relacionamento com o ex-presidente republicano.
Alerta e ativo, o octogenário Jimmy Carter parece resignado ao seu papel histórico mais positivo como ex-presidente do que como ocupante do poder.
Our Endangered Values
Editora Simon & Schuster
224 páginas, US$ 25