10 de novembro, 2005 - 03h34 GMT (01h34 Brasília)
Nick Assinder
O resultado da votação de uma lei "antiterrorismo" foi pior do que o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, poderia temer.
Blair não só perdeu a sua grande maioria no Parlamento, como foi redonda e convincentemente derrotado – pela primeira vez em oito anos.
Embora ele insista que não se trata de uma questão de liderança ou autoridade, o resultado o abalou pessoalmente e já levou o líder do Partido Conservador, Michael Howard, a defender a renúncia do premiê.
Nem mesmo o apoio do ministro das Finanças, Gordon Brown, conseguiu convencer os rebeldes trabalhistas a apoiar a proposta, extremamente polêmica, de deter suspeitos de "terrorismo" por 90 dias sem acusação formal.
E nem mais uma de suas atuações poderosas e passionais numa das sessões de perguntas que enfrenta toda semana conseguiu salvar o primeiro-ministro.
Na última dessas sessões, antes da votação, ele disse que preferia perder e estar certo a ganhar e estar errado.
Era, argumentou, uma questão de fazer a coisa certa, de dar à polícia e aos serviços de segurança o poder que eles precisam para impedir outra atrocidade na Grã-Bretanha.
Mas ele perdeu, com parlamentares apoiando a lei que estipula o máximo de 28 dias de detenção sem acusação formal. Nem a segunda opção, de 60 dias, teve chance.
Pressões
A derrota deverá certamente levar a mais pressões sobre Blair para apressar a sua partida e entregar o poder a Gordon Brown, ainda que ele rejeite as pressões dos conservadores pela renúncia.
O primeiro-ministro é um combatente e – até agora – um sobrevivente, mas o fato de ele já ter anunciado que vai deixar o poder antes das próximas eleições pode tornar a pressão sobre ele irresistível.
A derrota aconteceu depois que Blair chocou os parlamentares britânicos ao abandonar seus planos de buscar um consenso multipartidário e lançar uma ferrenha campanha em defesa da opção de 90 dias.
Ao fazer isso, ele deu a impressão de ignorar os conselhos de muitos do seu próprio partido, incluindo o secretário do Interior Charles Clarke, que vinha o tempo todo sugerindo que estava disposto a fazer concessões e mudou o tom no último momento.
Comandantes de polícia, os primeiros a sugerir o período de detenção de 90 dias, fizeram lobby junto a parlamentares e a ministros. Os aliados de Blair fizeram o possível para convencer os dissidentes.
Blair tentou atrair votos de alguns conservadores sugerindo que eles estavam do lado errado da disputa, ao não apoiar medidas duras contra o terrorismo.
Houve sugestões de que Blair sabia que estava enfrentando oposição por causa do seu legado de reformas de bem-estar social e decidiu escolher uma briga na qual ele tivesse o apoio do público.
Também é possível que ele tenha esperado que o fato de se tratar de uma disputa com dois lados nítidos – ele chegou a dizer que os parlamentares ou estavam com ou contra ele e a polícia – faria as pessoas pensarem.
Se ele tivesse ganho, ele teria se sentido fortalecido nas suas outras reformas e os rebeldes trabalhistas teriam saído enfraquecidos.
Na prática, as suas táticas, sua retórica e o que muitos viram como uma tentativa de retratar os opositores da lei como lenientes com o terrorismo não funcionaram.
No final, o primeiro-ministro fracassou e não foi por pouco. As suas outras reformas agora enfrentarão sérios problemas.
Poucos acreditam que Tony Blair esteja prestes a fazer as malas, mas também são poucos os que duvidam que as coisas nunca serão as mesmas para o maior vencedor de eleições que o Partido Trabalhista já produziu.