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04 de novembro, 2005 - 19h02 GMT (17h02 Brasília)

James Reynolds

Legado de Rabin vive em Ariel Sharon

Há dez anos, o primeiro-ministro de Israel discursou num comício em Tel Aviv.

Yitzhak Rabin defendeu a sua grande aposta política. Disse que era preciso dialogar com os palestinos e abrir mão de terra para obter a paz.

Ele contava com a simpatia de muitos israelenses, mas nem todos aprovavam a iniciativa e alguns faziam ameaças. Uma antiga máxima confortava o bloco favorável a Rabin: aquela que dizia que judeus não atacam judeus.

Naquela noite, porém, alguns disparos mudaram para sempre as convicções em Israel.

Yigal Amir

Yitzhak Rabin foi baleado e morto por um estudante religioso, Yigal Amir, que queria destruir o processo de paz.

Uma década depois, cabe a pergunta: o jovem radical conseguiu realizar o que queria?

Há cerca de dois anos, durante a segunda intifada, a resposta provavelmente seria sim.

Mas as coisas mudaram com a decisão do premiê Ariel Sharon de levar adiante a retirada de Gaza.

A saída promovida por Sharon foi elogiada pelos guardiães do legado de Rabin.

"O que ele fez agora, saindo de Gaza, está no mesmo caminho do conceito de meu pai", disse Dalia Rabin-Pelosoff, filha do premiê assassinado.

"Se você quiser então chamá-lo de sucessor, pode chamá-lo de sucessor. Ele chegou à mesma conclusão: de que para que sejamos um Estado judeu, democrático e independente, temos de nos separar."

A idéia central de Rabin – de trocar a terra por paz com os palestinos – sobreviveu portanto à sua morte.

Ela se tornou um dos princípios básicos dos partidos políticos dominantes de Israel. Há, porém, uma diferença fundamental entre o método de Rabin e o de Sharon.

Rabin concedeu terras por meio de negociações com os palestinos. Sharon fez o mesmo ignorando-os.

"A diferença entre eles é que Rabin queria um parceiro para a paz e procurou um até encontrar", afirma Mohammed Dajani, um acadêmico palestino.

"Já Sharon tem um parceiro para a paz, mas não consegue enxergar como lidar como ele."

Judeu X judeu

As balas de Yigal Amir deixaram outro legado. O assassino destruiu a certeza de que, não importa o que aconteça, o povo judeu continua unido.

A lembrança do que aconteceu com Rabin é uma ameaça que paira sobre Sharon.

"Assim que Ariel Sharon tentou seguir os passos de Rabin, ele recebeu as mesmas ameaças. Ao contrário de Rabin, porém, Sharon vem sendo protegido e cercado por 200 guarda-costas", diz Danny Ben Simon, do diário israelense Haaretz.

"Devo dizer, sobre esta ameaça, que nós não mudamos. Judeus radicais ainda estarão atrás de qualquer primeiro-ministro que ousar tocar na Terra Santa."

Diferentemente de Rabin, Sharon sobreviveu. E o assassino Yigal Amir continua preso.

Ele pode estar observando com prazer o fato de que Israel continua a ignorar os palestinos e a construir assentamentos.

Amir deve estar feliz por ter destruído a confiança entre os dois lados. E satisfeito por não haver, por enquanto, um Estado palestino.

Mas, pelo menos em um ponto importante, os disparos de Amir não funcionaram.

O outro político-soldado Ariel Sharon adotou o mesmo princípio de Rabin, e entregou terras aos palestinos.