http://www.bbcbrasil.com

01 de novembro, 2005 - 09h25 GMT (07h25 Brasília)

Ônibus para outro mundo

Nenhuma viagem de ônibus foi tão longe nos Estados Unidos como a de Rosa Parks. Começou há 50 aos. A costureira estava voltando cansada do trabalho quando um homem branco tentou expulsá-la do assento porque ela era negra.

A lei do Alabama estava com ele. Sem levantar a voz e sem fazer ameaças, Rosa Park não se levantou. Foi presa, pagou US$ 14 de multa e desencadeou um movimento.

Rosa Parks sempre teve uma expressão tranqüila, quase doce e falava baixo. A imprensa e as lideranças negras projetaram a imagem de uma costureira politicamente ingênua que não se levantou porque estava cansada do longo dia de trabalho.

Clique aqui para ouvir esta coluna na voz de Lucas Mendes

Douglas Brinkley, autor de livros sobre Franklin Roosevelt e Jimmy Carter desfez esta imagem na biografia de Parks.

Rosa não se levantou por indignação e porque tinha uma agenda política. Pouco antes do seu hoje histórico não, ela tinha se recusado a assinar um documento que reivindicava uma segregação mais reduzida nos ônibus.

Ela queria o fim da segregação completa. E não era tão mansa assim. Teve convivência cordial com grupos que defendiam o uso da violência para acabar com a discriminação racial mas não marchou com eles.

Honra para poucos

Por isto é a primeira mulher americana sendo velada no Capitólio, uma honra conferida a pouquíssimos líderes nacionais, entre eles os presidentes Lincoln e Kennedy.

Graças a Rosa Parks, houve um grande salto na integração racial nas décadas de 60 e 70, mas o racismo não foi extinto nos Estados Unidos.

O professor e historiador John Hope Franklyn, um negro de 92 anos que teve participação importante no movimento de integração, passou a vida estudando os mecanismos e efeitos da
escravidão.

Franklyn diz que é difícil acabar com o racismo porque tem raízes emocionais e intelectuais muito profundas. As justificativas dos brancos, embora falsas, foram bem construídas.

Até um iluminado como Thomas Jefferson, diz o professor, autor da Declaração de Independência, no seu livro , Notas sobre o Estado da Virginia, escreveu páginas e páginas sobre o cheiro dos negros e a incapacidade deles de imaginar e raciocinar.

A viagem de Rosa continua.