03 de novembro, 2005 - 19h52 GMT (17h52 Brasília)
Paulo Cabral
Do Cairo
As praias de águas calmas e azuis da costa nordeste da Península do Sinai são há muitos anos um ímã para turistas de Israel, poucos quilômetros ao norte.
Nos feriados judaicos, eles vêm em grandes grupos e são de todos os tipos: de famílias e turistas mais endinheirados, que ocupam os grandes hotéis cinco estrelas, até os mochileiros, que pagam US$ 2 ou US$ 3 por noite por uma cabana de palha à beira-mar.
Quando a previsão de movimento na fronteira é grande, o governo de Israel costuma emitir advertências de viagem, alertando para os riscos de um passeio num país árabe.
Mas pouca gente costuma dar ouvidos às advertências repetitivas, e os campos e hotéis do Sinai costumam ter bom movimento – embora reduzido desde o agravemento da violência no Oriente Médio – sempre que é dia de folga em Israel.
Mas no mês de outubro - recheado de feriados judáicos - a situação foi bem diferente. Passei alguns dias da última semana no Sinai, e os campings e hotéis na costa nordeste estavam praticamente desertos.
Atentado
Fiquei por dois dias na praia de Ras el-Saitan (Cabeça do Demônio) - cerca 60 quilômetros ao sul da fronteira com a Israel -, onde há apenas meia dúzia de campings instalados na praia.
Em 7 de outubro do ano passado, uma bomba explodiu em Ras el-Saitan (exatamente no camping Moon Island, onde fiquei hospedado agora) - e matou três turistas.
No mesmo dia, uma explosão pouco mais a norte no Hotel Hilton da cidade de Taba matou outras 32 pessoas, sendo 12 israelenses.
Depois de alguma semanas de choque, os turistas começaram a voltar para o Sinai, e o movimento estava se recuperando bem (segundo me contaram os funcionários de campings e motoristas da área), até as vésperas do último ano novo judaico, que em 2005 foi comemorado em 3 de outubro.
Advertências
Dessa vez o governo israelense emitiu uma advertência de viagem bem mais específica e séria: os turistas que viajassem ao Sinai estariam sob grande ameaça de seqüestro por militantes palestinos.
Segundo a inteligêcia israelense, os militantes teriam entrado no Sinai em setembro, durante a confusão que se seguiu à abertura da fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, depois que Israel encerrou a retirada do território ocupado.
O govero egípcio reforçou muito a segurança na área. A polícia está por todos os lados, e é impossível rodar por uma hora nas estradas do deserto sem ser parado em uma checagem de documentos.
A grande operação também tem como objetivo capturar gente que tenha colaborado com os ataques ao balneário de Sharm el-Sheikh (mais ao sul) realizados em junho deste ano.
Os turistas europeus já estão voltando para os resorts na costa sul - passei pela cidade de Dahab, já com um movimento bem maior do que nas últimas semanas -, mas os israelenses desapareceram do norte.
Policiais
No camping onde fiquei, só havia mais um hóspede e em nenhum dos outros a ocupação passava de dois chalés.
E em cada um deles, dois ou três policiais montavam guarda vinte e quatro horas por dia, mas fazendo vista grossa para o haxixe fumado abertamente pelos turistas na praia e a para pesca ilegal sobre os corais, praticada pelos moradores locais.
A preocupação era só com o risco de seqüestro levantado pelo governo isarelense. O turismo é uma fonte de renda essencial para o Egito, superada apenas pelos negócios com petróleo e petroquímica.
Conseguir garantir a segurança dos turistas no Sinai também é para o presidente Hosni Mubarak uma questão de manter boas relações com Israel. Mas, de maneira mais prática, responde a uma enorme necessidade da combalida economia egípcia.