21 de outubro, 2005 - 21h30 GMT (18h30 Brasília)
Jeremy Bowen
Não surpreende o fato de o governo da Síria ter rejeitado o conteúdo do relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o assassinato do ex-primeiro-ministro do Líbano Rafik Hariri.
O relatório contém uma série de alegações contra a família Assad, que governa a Síria, e seus aliados mais próximos, aumentando ainda mais a pior crise que ela enfrenta desde que Hafez Al-Assad, o pai do atual presidente, tomou o poder em 1967.
A conclusão do parágrafo 123 do relatório é devastadora.
O texto diz que "há provavelmente razão para se acreditar" que a decisão de assassinar Rafik Hariri não poderia ter sido tomada sem a aprovação de autoridades sírias "altamente graduadas" da área da segurança.
O relatório vai além, e acrescenta que a ação não poderia ter sido organizada "sem a conivência dos equivalentes (às autoridades sírias) nos serviços de segurança libaneses".
Vínculos com Beirute
O presidente do Líbano, Emile Lahoud, firme aliado da Síria e inimigo político de Hariri, também é incluído no relatório.
O irmão de uma das figuras-chave da investigação, Sheikh Ahmed Abdel-Al, ligou para o celular de Lahoud poucos minutos antes da explosão que matou Hariri, segundo o texto.
O presidente Lahoud ficou isolado desde que a Síria foi forçada a retirar suas tropas do Líbano, em abril deste ano.
Ele tem dito que está determinado a cumprir todo seu mandato, mas agora vai enfrentar pedidos de renúncia.
O general Mustapha Hamdan, comandante da guarda presidencial do Líbano e o assessor de segurança mais próximo de Lahoud, também é apontado por uma testemunha.
Quatro meses antes do assassinato, ele acusou Hariri de ser pró-Israel e supostamente disse à testemunha: "Vamos mandá-lo para uma viagem; adeus Hariri".
O investigador da ONU, Detlev Mehlis, tem o cuidado de dizer que a investigação precisa ser aprofundada e que as pessoas nomeadas no relatório precisam ser consideradas inocentes até que seja provada a culpa delas.
Mesmo assim, ele descreve uma conspiração ampla, que inclui autoridades graduadas da área de segurança da Síria e do Líbano.
O parágrafo 96 inclui o depoimento de uma testemunha, que alega ter trabalhado para o serviço secreto sírio, que descreve uma série de supostas reuniões em Damasco de autoridades de segurança da Síria e do Líbano para planejar o assassinato.
Algumas das reuniões teriam sido realizadas no palácio presidencial.
Motivos
Uma cópia do relatório obtido pela BBC mostra que nomes foram apagados quando a última versão estava sendo preparada.
Os nomes apagados do parágrafo 96 incluem os do irmão do presidente Bashar Al-Assad, Maher, e de Asef Shawkat, chefe do serviço secreto militar da Síria e casado com a irmã do presidente Assad.
Se o que essa testemunha diz é verdade, a conspiração chega ao coração da corte do presidente Assad.
O relatório critica a Síria por não cooperar de forma apropriada com a investigação da ONU.
Na verdade, acusa o ministro do Exterior da Síria, Farouk Al-Shara de mentir, dizendo que uma carta dele aos investigadores continha "informações falsas".
O relatório diz que Rafik Hariri foi morto por razões políticas, porque era visto como um inimigo da Síria e seus aliados no Líbano.
Mas Mehlis diz que poderia ter havido outros motivos dentro do "grupo sofisticado" que organizou seu assassinato, incluindo fraude, corrupção e lavagem de dinheiro.
Cópias do relatório foram mandadas a todos os membros do Conselho de Segurança da ONU, que vai discutir as suas conclusões na próxima semana.
A Síria já estava sob intensa pressão dos Estados Unidos. Essa pressão certamente vai se tornar mais intensa e é provável que venha antes por meio do Conselho de Segurança.