10 de outubro, 2005 - 12h16 GMT (09h16 Brasília)
Até uma certa época, entre os moleques de minha rua, era paroxítono: prêmio Nóbel. Depois da pelada, discutíamos com a mesma verve demonstrada na contenda a justiça da farta distribuição de prêmios.
Saiu muita briga, e briga feia, quando o contemplado com o prêmio de medicina ou química não era nosso favorito. Sim, éramos uma garotada estranha.
Um dia, um de nós, o melhor aluno da escola pública, nos informou que a pronúncia correta era Nobél, ou seja, uma palavra oxítona, como em Colchões Probel, e que, se um dia a fôssemos escrever, deveríamos evitar qualquer tipo de acento, inclusive e principalmente o trema, embora a questão fosse gerada na Escandinávia.
Ouvimo-lo com respeito e, só depois de alguns instantes, é que o cobrimos de porrada, para deixar de ser besta.
Tristes são as lembranças da infância, nelas nenhum saudosismo. Seja como for, acatamos o menino e, desde então, foi só Nobel, sem acento, prêmio oxítono.
Com o tempo, a discussão acalorada, cada vez que chegava esta época do ano – lembremos que no hemisfério sul é princípio de verão –, foi se tornando mais oral e menos física.
Aceitamos os Nobéis (será esse o plural, perguntaria ao garoto que sabia tudo?) de literatura, de medicina, do que fosse.
Desde 1953, torcíamos para que o Nobel de literatura fosse ou para Carlos Drummond ou para Jorge Amado. O pau aí saía entre as duas facções.
Pau feio, aliás, dada nossa idade e parrudice adquirida na praia e nas academias de judô. Mas, no fundo, no fundo, levava-se na esportiva.
A exceção era o Nobel de paz.
Quando não deram para a imensa alma que foi o Mahatma Gandhi, ficamos uma fúria com os noruegueses.
Sim, nossa cultura geral crescera com nossos bíceps. Sabíamos que o Nobel de Paz era o único que cabia à Academia Norueguesa escolher. Aos suecos, o resto.
Talvez os noruegueses soubessem mais de paz que os suecos. Como entender a essa gente tão ou mais misteriosa quanto nós?
Este ano, mais uma vez, senti falta da garotada da rua. Não deram o Nobel de Paz para um roqueiro, fosse Bob Geldof ou Bono.
Kissinger, Arafat e Menachen Begin abocanharam, se é esse o verbo, a honraria, nossos homens de guitarra elétrica, percussão e paz não.
Vontade de sair por aí e meter a mão na cara de um. Onde estão vocês, ó turma da pelada?