19 de setembro, 2005 - 14h36 GMT (11h36 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
George W. Bush entende destas coisas de suspense eleitoral na calada da noite. Foi o caso dele nas eleições de 2000 e 2004. Portanto, as emoções da votação alemã no domingo são familiares para o presidente americano. Outra emoção é a frustração.
A torcida de Washington obviamente era por uma clara vitória da conservadora Angela Merkel, mas a recuperação do social-democrata Gerhard Schröder na reta final mudou o quadro.
Agora a política alemã está no limbo e existem indefinições em torno da formação de um novo governo, com as mais variadas possibilidades de coalizão.
Política externa não foi o foco da campanha na Alemanha, mas relações transatlânticas sempre são um referencial. Bush esperava que a formação a toque de caixa de um governo de centro-direita em Berlim, em uma coalizão da democracia-cristã com os liberais com Angela Merkel na cabeça, fosse o desfecho da eleição.
Este cenário prenunciava uma melhoria das relações Estados Unidos-Alemanha. É verdade que este relacionamento já teve dias piores. A oposição de Schröder à política unilateralista de Bush, em particular no Iraque, foi o cavalo-de-batalha de sua vitoriosa campanha de reeleição em 2002.
Após uma fase de animosidade pessoal, o tom dos contatos entre Schröder e Bush se tornara mais profissional.
Mas, sempre que pode, o primeiro-ministro alemão fustiga o presidente americano. Nesta última campanha, ele descartou a possibilidade de uma cartada militar para resolver o impasse nuclear com o Irã.
E sempre que podem os americanos retaliam. Basta ver que Washington rechaçou a candidatura da Alemanha como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, enquanto endossou a do Japão.
Do ângulo americano, na consagrada expressão do secretário de Defesa Donald Rumsfeld, Schröder e o presidente francês Jacques Chirac representam a "velha Europa". Ironicamente, havia a expectativa que uma sólida ascensão de Merkel revivesse os velhos dias da aliança Washington-Berlim (ou Bonn, nos tempos pré-reunificação alemã).
Claro que a líder conservadora acena com mais entusiasmo na direção de Bush e do chamado modelo "anglo-saxão" de um Estado menos assistencialista e de reformas de mercado na terceira economia mundial.
Isto, porém, nunca significou uma corrida ansiosa na direção do presidente americano para resgatar a sua reputação ou fortalecer os interesses de Washington.
Merkel mediu o pulso do eleitorado. Diante do maciço sentimento anti-Bush e o que representa o "American way of life", Merkel não foi tão incisiva como se esperava para pregar as reformas econômicas.
Em termos de política externa, ela tampouco é tão pró-americana como o seu mentor, o ex-primeiro-ministro Helmut Khol, o qual mais tarde ela abandonou.
Merkel nunca planejou enviar tropas alemãs para o Iraque. Mas, vale repetir, um apoio moderado dos conservadores sempre é melhor para Washington do que a resistência do "velho europeu" Schröder.
Bush tivera boas notícias nos últimos tempos nas eleições em importantes países, com a permanência no poder de seus aliados, como o britânico Tony Blair e o japonês Junichiro Koizumi.
O mesmo não aconteceu em Berlim. Como os alemães, os americanos agora estão em compasso de espera.