17 de setembro, 2005 - 07h47 GMT (04h47 Brasília)
Paulo Cabral*
do Cairo
Um dos principais líderes do Hamas na Faixa de Gaza, Mahmoud Al-Zahar, disse em entrevista à BBC Brasil que vai demorar para que os palestinos consigam estabelecer uma “administração construtiva” em Gaza.
Zahar admitiu que a entrada dos palestinos nos assentamentos judaicos – logo depois que os soldados israelenses saíram da região – aconteceu sem qualquer coordenação das lideranças da comunidade.
"Eu acho que os palestinos reagiram com muita alegria porque era algo que todos queriam e estavam esperando há muito tempo. Ninguém vai ser capaz de implementar quaisquer planos nesta área em prazo tão curto", disse o líder militante.
"Conseguir estabalecer uma administração construtiva em Gaza ainda vai demorar muitos meses", acrescentou.
Al-Zahar disse que o próprio Hamas tem que mudar para passar de um organização paramilitar "que defende o povo da ocupação israelense" para um grupo que possa ter participação mais efetiva na administração interna de Gaza.
Armas
Mas Al-Zahar disse que, apesar de o Hamas estar em busca de uma ação política, o grupo não tem qualquer intenção de renunciar ao controle total de suas ações armadas.
Na opinião do grupo militante – compartilhada por grande parte dos palestinos na Faixa de Gaza – foi a resistência armada que forçou a retirada israelense de área.
Nas semanas anteriores à retirada, ocorreram choques em Gaza entre forças da Autoridade Palestina e militantes do Hamas, no que foi visto como indícios da disputa pelo controle da região, onde os grupos militantes islâmicos são muito fortes.
"Nossos objetivos não foram completamente alcançados e portanto não há nenhuma discussão no Hamas sobre abandonarmos nossas armas ou ações armadas", disse.
"Só vamos renunciar à independência do Hamas para realizar suas ações armadas quando houver um grande acordo (entre todos os grupos palestinos) que estabeleça como nossas armas têm que ser usadas para defender o povo."
Unidade
Al-Zahar afirma que o Hamas é a favor da unidade e do trabalho conjunto com a Autoridade Palestina mas reclama que seu grupo não recebe a consideração que merece.
“Nós somos a favor da reconciliação com a Autoridade Palestina mas não estamos conseguindo porque nem todo mundo (na Autoridade Palestina) aceita permitir que os grupos militantes, e o Hamas em especial, saibam o que está acontecendo dentro da administração."
Al-Zahar explica que uma comissão já foi formada, com todas as facções palestinas que estão fora da administração central, para discutir como a terra desocupada dos assentamentos deve ser utilizada pelos palestinos.
“Todos os palestinos concordam que esta terra não deve ser distribuída (em lotes separados). A terra deve ser usada apenas para investimentos em habitação, saúde, educação, agricultura e tudo mais que favoreça a comunidade”, disse.
“Essa decisão deveria ser oficializada depois das eleições (legislativas) previstas para janeiro (de 2006). O governo eleito vai ter que executar estes princípios, com os quais acredito que todo mundo vai concordar”, concluiu.
*Colaborou Karim Hauser