09 de setembro, 2005 - 13h21 GMT (10h21 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
As Nações Unidas se preparam para sediar, a partir do dia 14, a maior cúpula de dirigentes da história em meio à maior crise de credibilidade nos 60 anos da instituição.
Debilitada por um escândalo de corrupção e alvo de sucessivos inquéritos sobre o programa de troca de petróleo por comida no Iraque de Saddam Hussein, a ONU realiza esforços tanto para fazer reformas internas como para atingir as metas de desenvolvimento fixadas na Cúpula do Milênio do ano 2000.
São esforços que enfrentam o ceticismo e a resistência dos EUA, o país mais poderoso do mundo e principal patrocinador das Nações Unidas. Uma medida exata desta resistência é o novo embaixador americano na ONU, John Bolton, que apresentou 750 emendas ao documento da cúpula 2005.
O presidente George W. Bush empossou Bolton em julho durante o recesso parlamentar, pois ele estava há cinco meses à espera da confirmação pelo Senado.
'Desprezo'
Para os críticos, a insistência de Bush confirmou seu desprezo unilateralista pela ONU. Na verdade, a atitude americana é mais complicada. A Casa Branca rebate que é a postura combativa de Bolton que o torna sob medida para pressionar por reformas na ONU.
O fogo cruzado e os ânimos exaltados ofuscam um ponto de consenso: a relevância histórica das Nações Unidas para a diplomacia americana. Mesmo com queixas sobre os descaminhos da instituição, existe um establishment bipartidário nos EUA para o qual os interesses do país são bem servidos por um ativo engajamento em órgãos multilaterais como ONU, Otan ou FMI-Banco Mundial.
Uma rápida e irônica lição de história. Um consagrado internacionalista no Partido Republicano chama-se George Bush, o ex-presidente que é pai do atual. No seu extenso currículo de servidor público consta o cargo de embaixador dos EUA na ONU entre 1971 e 1973.
O pendor unilateralista do filho não exclui um compromisso com a ONU, apesar da colisão histórica na guerra do Iraque.
Multilateralismo à la carte
Neste segundo mandato, o presidente republicano foi à luta para colocar falcões notórios em ninhos multilateralistas como a ONU (Bolton) e o Banco Mundial (Paul Wolfowitz).
Como lembrou o todo-poderoso vice-presidente Dick Cheney, em uma entrevista ao jornal The Washington Post, o governo Bush não tem nada contra o multilateralismo em si. A prática vale quando oferece resultados aos interesses americanos.
É o chamado multilateralismo à la carte. Bush espera que venha a ser servido com muita freqüência nas Nações Unidas por John Bolton.
Mas a ONU não foi criada para o exercício cru da hegemonia dos EUA. Em um livro publicado há dois anos (Act of Creation), Stephen Schlesinger mostrou como o nascimento da instituição foi um sofisticado triunfo da diplomacia americana, uma obra genial de Franklin Roosevelt.
Em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial e após o fiasco da Liga das Nações, havia pouco entusiasmo por uma nova tentativa de criar uma entidade diplomática mundial.
Winston Churchill e Josef Stalin estavam céticos. Para que projetos utópicos? Melhor firmar novos tratados de Tordesilhas e tocar a geopolítica.
Mas criar a ONU era prioridade para Roosevelt, e o projeto não tinha nada de utópico. O presidente americano finalmente persuadiu os comparsas da guerra contra o Eixo sobre a validade de uma nova entidade mundial.
Roosevelt não queria repetir os erros e o idealismo de Woodrow Wilson com a Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial. Desta vez, era necessária uma entidade com músculo, com poder.
A idéia não era erguer os pilares de um governo mundial. O objetivo era um pacto de segurança para evitar uma outra guerra mundial.
O clube da ONU seria aberto a todos (grandes e pequenos, ricos e pobres), mas a ordem seria mantida pelos "quatro policiais": EUA, Rússia, China e Grã-Bretanha. Logo depois, a França ganhou seu uniforme e privilégios.
Tudo isto foi visualizado por Roosevelt num momento de descomunal dominação global americana, maior do que nos dias de hoje. Roosevelt sabia que a paz americana deveria ser multilateral, embora descartando uma utopia democrática.
O compromisso americano com a ONU continua 60 anos mais tarde, mas no lugar da fina arquitetura de Roosevelt temos a obra rústica de Bush e seu capataz John Bolton.