31 de agosto, 2005 - 16h32 GMT (13h32 Brasília)
Paulo Cabral
do Cairo
A palavra xiita se refere ao segundo maior subgrupo da religião muçulmana mas, em muitas partes do Ocidente, o termo se tornou também um adjetivo para definir ideologias radicais.
No Brasil, o próprio jargão político nacional deixa esta idéia clara: “xiitas do PT” foi o apelido dado àqueles petistas das alas mais à esquerda do partido. Mas também em inglês o termo shia é muito associado a tendências políticas extremistas.
Só que a situação no Iraque está obrigando o mundo a reexaminar esta idéia.
Pois agora são os temidos xiitas que estão jogando pelas regras político-eleitorais iraquianas, enquanto parte principalmente dos sunitas a resistência armada e violenta contra a presença estrangeira e o novo regime.
Origens
Os xiitas formam algo entre 25% e 35% da população muçulmana mundial, enquanto os sunitas respondem por praticamente todo o resto.
A origem da divisão entre os dois grupos vem do ano 632, quando o profeta Maomé morreu e um grupo de muçulmanos – os xiitas originais – escolheram o primo e genro dele, Ali, como novo líder.
Diversas diferenças rituais, históricas e teológicas separam os dois grupos, mas não há nada de mais ou menos radical nas ideologias xiitas que justifiquem a imagem que o grupo ganhou mundo afora.
O que é mais provável é que tal imagem tenha surgido depois de 1979, quando os xiitas do Irã fizeram sua revolução e fundaram a primeira República Islâmica da história moderna.
Alianças
O movimento liderado pelo aiatolá Khomeini acabou se colocando com destaque entre os movimentos anti-Ocidente no Oriente Médio e a partir daí a imagem de radicalismo colou nos xiitas para não mais desgrudar.
Também colabora com esta imagem o grupo Hizbollah, criado no sul do Líbano como uma milícia para combater a ocupação israelense, mas hoje estabelecido também como um dos partidos políticos mais importantes do país.
Em todos os países árabes – o Irã é, na verdade, uma nação persa – são os sunitas que estão no poder, mesmo em países com grandes grupos xiitas, como Bahrein.
E, na verdade, no mais socialmente conservador de todos – a Arábia Saudita - a religão oficial é um subgrupo sunita chamado de wahabita.
Osama Bin Laden
Os wahabitas acreditam que tudo deve ser feito de acordo com os antigos ensinamentos do profeta e que os textos sagrados têm que ser interpretados a partir da visão “das três primeiras gerações de muçulmanos”, sem levar em conta o que aconteceu com o mundo depois.
Além de toda a família real saudita, também Osama bin Laden faz parte da seita, considerada tão radical que mesmo muitos sunitas não os acolhem como um de seus subgrupos.
O radicalismo, no entanto, nunca impediu as profundas alianças entre wahabitas e países ocidentais, como é o caso do governo saudita, e foi no passado o caso de Bin Laden.
No complicado mapa de tendências políticas e religiosas do Oriente Médio, saber quem vai jogar para que lado e com que time é possível contar é uma análise que precisa ir bem além dos rótulos mais óbvios e visíveis.