29 de agosto, 2005 - 19h04 GMT (16h04 Brasília)
Jon Brain
de Bagdá
Por que razão, após meses de duras negociações, os sunitas do Iraque rejeitaram o texto da nova Constituição, aprovada pelos xiitas e curdos?
As raízes de suas insatisfações estão no período anterior à invasão militar americana, em março de 2003. Naquela época, os sunitas, apesar de serem apenas 20% da população, controlavam o país por meio do Partido Baath, de Saddam Hussein.
Os xiitas e curdos eram marginalizados. Milhares deles foram mortos ou presos pelos homens de Saddam.
Com a saída de cena do ditador, os xiitas, que são a maior comunidade no Iraque, acreditam que chegou a sua hora de exercer o poder.
Para conseguir isso, eles estão dispostos a eliminar os resquícios do antigo regime. O primeiro texto do projeto constitucional estipulava que ex-dirigentes do Baath estariam proibidos de ocupar cargos públicos.
O palavreado usado no documento foi amenizado durante as negociações, mas os líderes sunitas dizem que o texto revisado ainda limita o direito de muitos integrantes de sua comunidade.
Federalismo
A outra forma pela qual alguns xiitas tentam enterrar o passado é por meio do enfraquecimento dos laços com Bagdá.
A Constituição abre a possibilidade para os xiitas de obter um certo grau de autonomia no sul do Iraque, além de ratificar a autonomia já existente para os curdos, ao norte.
Os sunitas se opõem a isso, pois temem que a iniciativa levaria à fragmentação do país. Além disso, eles suspeitam que os xiitas passariam a controlar a receita do petróleo no sul, e que os curdos fariam o mesmo no norte, não sobrando nada para os sunitas.
O documento proposto para a nova Carta afirma que a receita do petróleo será usada para o benefício de todos os iraquianos, mas os sunitas temem que tal garantia seja esvaziada caso o federalismo se concretize.
O futuro agora depende dos sunitas descontentes. O projeto da Carta será submetido a votação popular num referendo em outubro.
Segundo as regras eleitorais, para que o documento seja rejeitado nas urnas basta que dois terços do eleitorado em 3 das 18 províncias votem contra.
Os sunitas dominam quatro províncias e, desta forma, detém o poder de veto.
Mas há um detalhe importante: para impedir que a Constituição como foi formulada entre em vigor, os sunitas terão de fazer aquilo que não fizeram nas eleições de janeiro: aparecer para votar.
Ou seja, por mais que estejam enterrando o projeto constitucional, os sunitas pelo menos estariam participando do processo democrático. Isso pode ser um passo importante no caminho iraquiano rumo a um futuro melhor.