24 de agosto, 2005 - 11h07 GMT (08h07 Brasília)
Nós todos naquele vagão do metrô temos a certeza de que há um deles entre nós.
Já na entrada, um policial uniformizado, colete amarelo, arma assustadora, nos saudava dizendo, com sua seriedade e silêncio, que Londres, agora, era outra.
Nós todos naquele vagão do metrô lemos os jornais, assistimos aos noticiários na televisão.
Policiais à paisana estão discretamente distribuídos pelo sistema de transportes londrino zelando pela nossa segurança. Dizem. Estaremos reassegurados? Mesmo? Serão impecáveis profissionais?
A viagem não dura muito. Uns 20 minutos. São perto de 10 da manhã. Dá para fazer o percurso sentado. Ainda é difícil se concentrar e ler o jornal. Mesmo assim, ele é aberto e, por trás de suas folhas protetoras, os outros companheiros, nenhum deles o "belo tipo faceiro" do famoso anúncio do Rhum Creosotado, são perscrutados.
Joga-se o jogo da suspeita, que ganhou das palavras cruzadas e do sudoku de uns tempos para cá: quem será o policial?
Será aquele tipo de camisa esporte ligeiramente recostado no banco ao lado e fingindo dormir? Nós todos naquele vagão do metrô sabemos que ele, o policial, deve ter lá por seus 30 anos.
Então deve ser aquele outro de paletó, mas sem gravata, volta e meia mexendo no celular, como se estivesse tentando consertar alguma coisa. Nada impede que seja o camaradinha com a fiação saindo dos ouvidos, balançando ligeiramente o
corpo, como se estivesse ouvindo rock.
Não será contato com a central de polícia? E o sujeito bem vestido que lê o jornal de distribuição gratuita? Há quanto tempo ele não vira a página?
Espera aí – e quem disse, quem jura que não é mulher? Há polícia feminina que não acaba mais na cidade. De uniforme ou jeans. Vai ver então…
Vai ver então que nós todos naquele vagão do metrô estamos jogando o jogo errado. Há que se descobrir o policial e também o terrorista. Um olho aqui, outro ali: vesgos até a alma, concluímos.
Que é quando nos damos conta que há alguém nos mirando firme no banco em frente.