23 de agosto, 2005 - 16h04 GMT (13h04 Brasília)
O diplomata brasileiro Manoel Gomes Pereira disse nesta terça-feira que não tem motivos para acreditar que a polícia britânica escondeu fatos relacionados à morte do eletricista Jean Charles de Menezes.
Pereira, diretor do Departamento de Brasileiros Residentes no Exterior do Itamaraty, integra a comissão que busca em Londres esclarecimentos sobre o caso.
Em uma entrevista coletiva em Londres com o diretor-adjunto do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, Márcio Garcia, e o subprocurador-geral da República e corregedor-geral do Ministério Público Federal, Wagner Gonçalves, Pereira disse que “estamos trabalhando com eles (os policiais) e até agora não temos qualquer motivo para pensar isso”.
Ele afirmou ainda que a comissão, no momento, pensa apenas na possibilidade de um inquérito normal. “O IPCC é (um órgão) independente e nós confiamos completamente nos seus métodos”, disse o diplomata.
Gonçalves também disse que não se pode acusar a polícia metropolitana de ter abafado o caso. "Até agora nós não podemos falar que há suspeita de abafamento, porque, se houvesse realmente abafamento, esse controle (das investigações) estaria com a polícia metropolitana e não está. Foi para esse órgão (IPCC), que é independente."
“Estamos analisando especificamente a legislação aplicada neste caso. Por exemplo: quais são as regras para os legistas, o que para nós é algo novo. Queremos entender melhor como tudo funciona”, acrescentou Márcio Garcia.
Esta missão, que volta ao Brasil nesta sexta-feira, é apenas a primeira de outras que virão para acompanhar o caso, segundo Gonçalves.
"Este é um primeiro contato, nós queremos entender o sistema. Esta não será a única missão. Virão outras, com outras pessoas para acompanhar isso. Queremos entender esse sistema e fazer um acompanhamento para que não haja impunidade", afirmou Gonçalves.
Coincidência
Pereira afirmou que a vinda dos representantes para Londres, dias depois do vazamento de documentos com informações que contradiziam a versão inicial da polícia a respeito da morte de Jean Charles de Menezes, foi apenas uma coincidência.
“Há cerca de dez dias, nós pedimos autorização ao governo britânico para vir para cá e ele autorizou nossa vinda antes deste fato”, disse.
A respeito do conteúdo dos documentos, Pereira reiterou a visão do Ministério do Exterior brasileiro.
“Ficamos perplexos. Divulgamos uma nota na quarta-feira da semana passada em que afirmamos que estávamos perplexos e tentando encontrar alguma explicação para os fatos, para a nova informação que foi vazada”, disse.
Pereira também comentou a reunião dos representantes brasileiros com o chefe adjunto da polícia de Londres, John Yates.
“Yates nos deu informações a respeito das circunstâncias da morte (de Jean Charles de Menezes) e sobre o trabalho da polícia. No momento, toda a informação foi transferida para o IPCC”, disse.
“Segundo o senhor Yates, uma hora depois do incidente eles enviaram uma comunicação para o IPCC, eles foram informados desde o início. Pela conversa que tivemos ontem, concluímos que esta é a lei, eles (a polícia) precisam fazer desta forma”, disse Márcio Garcia.
“A razão para o atraso de quase 72 horas estava ligado às suspeitas que existiam (em relação à Jean) com base na legislação antiterrorismo. Depois, todos os dados da investigação foram enviados para o IPCC, todas as provas estão com o IPCC e não tivemos a chance de conversar com eles”, acrescentou Garcia.
Órgão novo
Para Garcia, um aspecto importante é que o IPCC é um órgão novo.
“Se eu estou certo, o IPCC é uma instituição nova, trabalhou em cinco ou seis casos e seu trabalho se desenvolve conforme é executado. A entrevista com eles (IPCC) será muito importante para nós”, afirmou Garcia.
Gonçalves também afirmou que na reunião com o IPCC, marcada para a tarde desta quarta-feira, a missão brasileira pedirá acesso às imagens do circuito de câmeras da estação de metrô de Stockwell do dia da morte de Jean Charles.
Pereira afirmou que o governo brasileiro foi informado da visita de John Yates à família de Jean Charles de Menezes no Brasil, para oferecer 15 mil libras (cerca de R$ 65 mil).
“O que me comunicaram é que foi um pagamento de favor, feito para o primeiro período imediatamente depois da morte (de Jean Charles de Menezes)”, disse.
“Nós recebemos uma nota da Polícia Metropolitana que afirmava que era apenas uma primeira ajuda e não se tratava de compensação à família, eles (a família de Jean Charles) não estão proibidos de procurar seus direitos na Justiça”, acrescentou Márcio Garcia.