12 de agosto, 2005 - 08h57 GMT (05h57 Brasília)
Raffi Berg
A decisão do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, de retirar os colonos judeus da Faixa de Gaza e de parte da Cisjordânia abalou a comunidade judaica ortodoxa de Israel.
Nunca antes um governo israelense abriu mão do que a população religiosa vê como uma terra sagrada, prometida para os judeus por Deus.
A iniciativa desafia a base das crenças religiosas, deixando muitos judeus ortodoxos – entre eles, alguns soldados – em um caos espiritual e ansiando por diretrizes de como reagir.
"Não há dúvida de que esta é uma das questões mais críticas que a população israelense já enfrentou desde o estabelecimento do Estado em 1948", disse o professor de Direito da Universidade Hebraica, Eliav Shochetman.
"A questão de ceder terra está em disputa entre os rabinos. De acordo com alguns deles, não é permitido dar 'Terra de Israel' para outro poder soberano, mas outros acham que é permitido sob determinadas circunstâncias."
"Vida ou morte"
Os colonos israelenses são considerados ilegais de acordo com leis internacionais, embora isso seja contestado por Israel.
A maioria das autoridades em leis judaicas (halacha) concorda que a terra bíblica pode ser cedida em uma condição – a de que isso garanta a preservação da vida de judeus.
Um dos mais influentes posek (o árbitro de halachic – halacha é o corpo de leis judias) em Israel, o ex-rabino-chefe sefaradi Ovadia Yosef se opôs publicamente ao plano do governo, chamando-o de "questão de vida ou morte".
Um outro posek, o ex-rabino-chefe Avraham Shapira, foi mais longe, emitindo um parecer declarando que a retirada é proibida pela halacha.
"Esta proibição se aplica a todos os judeus, tanto soldados quanto civis."
"Uma ordem para participar da retirada dos judeus de suas casas para dar a terra para não-judeus é uma ordem contra a religião da nossa sagrada Torá e é proibida de ser cumprida", disse Shapira.
"Quem violar esta proibição não será exonerado, nem neste mundo nem no outro mundo."
É uma determinação que pode ter um impacto significativo. Já houve outros casos de soldados que se recusaram a participar dos preparativos para a retirada por motivos religiosos, e há notícias de que até 20 mil outros assinaram uma petição jurando desobedecer às ordens assim que a retirada começar.
Em meados de agosto, um jovem israelense que desertou do Exército em protesto contra a retirada de Gaza matou a tiros quatro árabes israelenses em um ônibus.
Insubordinação
Na opinião do rabino Shapira, não há unanimidade entre os religiosos. Alguns deles advertiram que insubordinação pode levar a violência e até a guerra civil.
Em uma recente entrevista ao The Commentator, o jornal da prestigiada Universidade Yeshiva, Norman Lamm disse que ele e outros rabinos acreditam firmemente que "desobediência por parte das forças israelenses constituiria um desrespeito ao nome de Deus e assombraria (o povo judeu) por gerações".
O comentarista da rádio de Israel para questões judiciais, Moshe Negbi, disse que convicções religiosas não podem ser usadas para justificar a recusa de obedecer ordens.
"Nós estamos em uma democracia, não em uma teocracia, então as leis religiosas têm poder sobre o nosso sistema legal, tais como casamento, divórcio e leis de família, mas elas não suplantam leis do Parlamento."
"Nós temos uma parte específica das leis marciais que dizem que uma ordem que é manifestadamente ilegal e imoral não deve ser cumprida, mas eu não acho que há bases para dizer que a ordem de evacuar Gaza seja deste tipo."
Lei da terra
A opinião de que leis do Estado automaticamente tomam precedência sobre as leis religiosas não é compartilhada pelo ex-procurador-geral adjunto, Nachum Rakover, presidente da Sociedade do Patrimônio Legal Judaico.
"Nosso direito à 'Terra de Israel' é um preceito muito importante, de acordo com a Torá."
"Há uma expressão judaica – a lei da terra é a lei –, mas há leis entre o homem e Deus que não podem ser mudadas."
"Isto se aplica à doação de terras porque o assentamento de judeus na 'Terra de Israel' é um dos mais importantes preceitos da Torá."
Há grandes diferenças de opinião sobre o tema.
"Nós estamos falando sobre uma questão que está na natureza do que significa ser um judeu e o do que significa o Estado de Israel, e fazer uma declaração absoluta sobre o assunto é incrivelmente perigoso para a natureza do judaísmo hoje", disse Chaim Milikowsky, chefe do departamento de Talamud da Universidade Bar Ilan em Tel Aviv.