27 de julho, 2005 - 04h41 GMT (01h41 Brasília)
O governo colombiano disse pela primeira vez que está disposto a negociar com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) para tentar assegurar a libertação de 60 civis e militares seqüestrados pelo grupo nos últimos anos.
“Tenho instruções do presidente de me reunir com as Farc em qualquer lugar. O lugar que eles definam. O dia e a hora que eles estabeleçam. Com condições de segurança que lhes dêem confiança. Com acompanhamento nacional e internacional, o que eles considerarem adequado", afirmou o Alto Comissário para a Paz do governo, Luis Carlos Restrepo.
A oferta marca uma mudança na posição do governo de Álvaro Uribe, que até então exigia um cessar-fogo dos rebeldes antes de iniciar qualquer diálogo.
"Esperamos simplesmente que eles tenham um gesto de boa vontade e que, claro, possa se concretizar de maneira imediata", acrescentou Restrepo.
O grupo de reféns sob poder das Farc inclui a ex-candidata à Presidência do país, Ingrid Betancourt, ex-políticos e três cidadãos americanos. Alguns deles estão em cativeiro há mais de oito anos.
As Farc tentam há quase três anos convencer o governo a libertar centenas de seus membros, em troca de reféns, mas as negociações – apoiadas por diversos setores da sociedade civil – nunca progrediram.
Familiares dos reféns
O anúncio de Restrepo foi feito depois de uma reunião de Uribe com a mãe de Betancourt, Yolanda Pulecio, e Patricia Perdomo, filha da congressista Consuelo González de Perdomo, também em poder das Farc.
O correspondente da BBC em Bogotá, Héctor Latorre, diz que nos três anos de mandato, Uribe vem flexibilizando as suas condições para um possível troca entre reféns e guerrilheiros.
No ano passado, ele chegou a propor às Farc que representantes das duas partes se encontrassem em qualquer sede diplomática ou igreja do país, mas o grupo rechaçou a idéia.
Em dezembro do ano passado, Uribe indultou 23 guerrilheiros das Farc num gesto unilateral para impulsionar um possível acordo, mas a medida não surtiu efeito.
As Farc mantêm a exigência de que uma zona seja desmilitarizada para que sejam feitas as negociações de intercâmbio, condição que vem sendo negada por Uribe.
Para o analista Vicente Torrijos, o anúncio de Uribe é uma tentativa de mostrar que a sua política de diálogo se aplica a todos os grupos armados e não apenas aos paramilitares da Autodefesas da Colômbia, como alegam alguns de seus críticos.
"Trata-se de legitimar esse proceso de negociação com os paramilitares e enviar uma mensagem clara à comunidade internacional de que não se trata em nenhum momento de complacência com as autodefesas e sim uma política de Estado, de abertura para todos os grupos armados que queiram promover qualquer tipo de diálogo ou de aproximação da paz", afirmou Torrijos à BBC.