05 de julho, 2005 - 11h52 GMT (08h52 Brasília)
Denize Bacoccina
de Washington
A promessa do presidente americano, George w. Bush, de dobrar a ajuda do país à África até 2010 é vista com ceticismo por organizações que atuam em programas de combate a pobreza e epidemias no continente.
“É uma decepção para as organizações que fazem campanha para acabar com a pobreza na África e esperavam um grande avanço na reunião do G-8”, disse Paul Zeitz, diretor executivo da Aliança Global para Aids, que coordena programas de educação e saúde na África.
A organização considerou muito pequena a promessa de Bush de oferecer mais US$ 1,7 bilhão para continente, dos quais US$ 1,2 bilhão para combate à malária, uma doença endêmica que pode ser prevenida e mata milhares de pessoas todos os anos na região.
A necessidade de os países desenvolvidos atuarem para acabar de vez com a miséria na África é um dos principais temas da reunião do G-8 que acontece em Gleneagles, na Escócia, entre quarta e sexta-feira desta semana.
Diferenças
Especialistas também contestam a afirmação de Bush, repetida num discurso na semana passada, de que seu governo triplicou a ajuda à África Subsaariana no primeiro mandato.
“A ajuda americana à África não triplicou e nem mesmo dobrou”, diz Susan Rice, secretária-assistente de Estado para Assuntos Africanos no governo Clinton, num estudo do Brookings Institution, um grupo de estudos baseado em Washington.
Depois de analisar os projetos que o governo americano financia na região, ela conclui que, em termos reais, a ajuda americana aumentou 56% entre 2000 e 2004.
Considerando o valor nominal em dólar, o aumento foi um pouco maior, de 67%, de um total de US$ 2,03 bilhões em 2000 para US$ 3,39 bilhões no ano passado, segundo Rice.
Os números do governo americano são diferentes.
O assessor de segurança nacional da Casa Branca, Stephen Hadley, disse que a ajuda bilateral e por meio de instituições multilaterais dos Estados Unidos para a África somou US$ 4,3 bilhões no ano passado.
Segundo ele, os três programas adicionais anunciados pelo presidente americano para melhorar a educação, combater a malária e para programas contra abuso de mulheres vão elevar esse montante para US$ 8,6 bilhões em 2010.
Recursos novos
Susan Rice argumenta que nos últimos anos o maior incremento foi verificado nos programas de ajuda alimentar e de segurgança e não nos projetos para desenvolvimento sustentável. “O tipo de projeto que a África precisa para conseguir uma redução da pobreza duradoura”, avalia.
Ela diz que os recursos para projetos de desenvolvimento aumentaram apenas 33% no primeiro mandato de Bush.
Mas Rice considera um passo positivo a concordância do governo americano em atuar junto com os outros membros do G-8 para cancelar a dívida de 18 países altamente endividados com organismos multilaterais.
A Aliança Global para Aids diz que Bush apresenta como novos recursos que já estavam aprovados pelo Congresso americano.
De acordo com a organização, metade dos US$ 400 milhões prometidos pelo presidente para educação já está previsto no orçamento.
Os recursos novos são apenas US$ 40 milhões por ano, suficientes para custear a educação de 300 mil crianças - enquanto existem 25 milhões de crianças no continente que não têm acesso à educação primária.
“É um passo muito pequeno num momento em que a África precisa de um grande avanço na área da educação”, disse Gene Sperling, presidente do escritório americano da Campanha Global para Educação.
Primeiro passo
No discurso em que apresentou a proposta dos Estados Unidos para a África no G-8, Bush destacou o programa democrático no continente e citou várias eleições realizadas nos últimos anos.
Mas ele disse que os países africanos precisam não apenas de recursos mas “de um novo pensamento” e que a relação deles com os Estados Unidos devem ser “de parceria e não de paternalismo”.
O diretor da ONG Oxfam para os Estados Unidos, Chad Dobson, disse que a promessa do presidente americano é muito bem vinda desde que seja um primeiro passo.
Ele observou que Bush prometeu um acréscimo de US$ 900 milhões por ano e que a necessidade é muito maior do que isso.
“Calcula-se que a África precisa um volume adicional de US$ 25 bilhões por ano e esperamos que este anúncio seja apenas o início de um compromisso muito maior dos Estados Unidos para lutar contra a pobreza”, afirmou.