04 de julho, 2005 - 09h58 GMT (06h58 Brasília)
Marcia Carmo
enviada especial a Caracas
Analistas venezuelanos ouvidos pela BBC Brasil entendem que os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e de Cuba, Fidel Castro, “perderam seu principal interlocutor” no Palácio do Planalto com a saída de José Dirceu da Casa Civil.
“José Dirceu era partidário dos dois governos (Chávez e Fidel) e a saída dele foi uma má notícia para os dois presidentes”, disse o professor de Ciências Políticas da Universidade Central, Diego Bautista Urbaneja.
Para ele, Hugo Chávez não chegará a mudar seus planos de governo devido à crise brasileira mas, certamente, presta atenção no que ocorre no Brasil, onde tem o presidente Lula como aliado.
O escritor Alberto Garrido, com vários livros publicados sobre Chávez, acha que a crise brasileira merece atenção na Venezuela por vários motivos.
O primeiro é o elo Brasília-Buenos Aires-Caracas, com uma aproximação política, econômica e estratégica entre os governos do Brasil, da Argentina e da Venezuela. “Apesar de Lula e Néstor Kirchner não terem governos revolucionários como o de Chávez, são entendidos aqui como de esquerda. Mas uma esquerda diferente da que pratica o presidente venezuelano”, afirmou.
Estados Unidos
A diferença, destacou, está, principalmente, na relação mantida entre Brasil e Estados Unidos e Argentina e Estados Unidos e o discurso de Chávez contra o governo de George W. Bush. Garrido concorda que a saída de José Dirceu representa uma “perda” para Chávez e Fidel – dois presidentes cada vez mais próximos, segundo diferentes analistas.
Nas últimas semanas, a crise política brasileira virou notícia nos principais jornais da Venezuela. Na última sexta-feira, por exemplo, o jornal El Universal, publicou o “Diccionario de la crisis”, citando matéria da revista Veja sobre os novos verbetes da corrupção no Brasil.
Diplomático, o ministro das Relações Exteriores, Alí Rodríguez Arague, reagiu assim quando perguntado sobre o momento político brasileiro: “Crise? Que crise?”. Depois disse que tem “certeza” de que o presidente Lula conseguirá “esclarecer” o que está ocorrendo.
Segundo ele, a relação entre o Brasil e a Venezuela deu “um forte salto” desde que os dois “líderes” (Lula e Chávez) estão no governo. “É uma relação de entendimento mútuo e com os mesmos objetivos, de avançar na área social”, acredita.
A única queixa, afirmou, é em relação à balança comercial, favorável ao Brasil.
Segundo dados oficiais, o Brasil exporta US$ 1,4 bilhões anuais, em diferentes produtos, enquanto a Venezuela limita-se a enviar o equivalente a US$ 200 milhões para o mercado brasileiro. “Mas já estamos conversando com o governo brasileiro para ver como resolvemos isso”, disse o chanceler venezuelano.