30 de junho, 2005 - 23h05 GMT (20h05 Brasília)
Denize Bacoccina
de Washington
No momento em que aumenta a pressão de grupos que atuam em projetos na África para que os países desenvolvidos aumentem a ajuda financeira para acabar com a pobreza e as epidemias no continente e o presidente americano, George W. Bush, prometer dobrar a ajuda americana nos próximos cinco anos, um estudo de de dois economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que a ajuda financeira externa nem sempre é benéfica para a região.
“Encontramos sinais de que fluxos sistemáticos de recursos têm um efeito adverso na competitividade do país, com a queda na produção dos setores de mão-de-obra intensiva e produtos exportáveis”, diz o estudo, dos economistas Raghuram G. Rajan and Arvind Subramanian, do Departamento de Pesquisa do FMI.
O estudo argumenta que esses efeitos negativos vêm da supervalorização da taxa de câmbio da moeda, causada pelo fluxo de ajuda estrangeira.
Por outro lado, eles dizem que o fluxo de recursos privados, como remessas de trabalhadores residentes no exterior, não tem um efeito semelhante, porque o fluxo de remessas se ajusta automaticamente e diminui quando a taxa de câmbio está supervalorizada.
"Cultura de dependência"
Rajan e Arvind Subramanian dizem que outros estudos já concluíram que corrupção e má gestão dos recursos não são as únicas razões pelas quais a ajuda externa não leva ao crescimento econômico.
Além disso, eles argumentam que a ajuda externa tem efeitos negativos no longo prazo. “Embora os recursos sejam adicionais no início, depois de um tempo o país se torna mais relapso em relação a aumentar a arrecadação de impostos e o país precisa de mais ajuda para se manter”, dizem os economistas.
“Se essa ajuda não vem e o país perdeu a capacidade de arrecadação de impostos, todos os efeitos benéficos de curto prazo acabam e cria-se uma cultura de dependência”, afirmam.
Um outro efeito, dizem eles, é o enfraquecimento das instituições, à medida em que o fluxo de recursos garantido reduz a necessidade do governo de explicar suas ações à população. “No longo prazo, pode haver uma influência de corromper mesmo o mais bem intencionado dos governos”, afirma o estudo.
Outro estudo, dos mesmos economistas, analisando a relação entre ajuda externa e crescimento econômico, conclui que não existe uma relação forte entre os dois fatores.
Eles ressaltam que o estudo é baseado em experiências passadas, o que não significa necessariamente que o fenômeno vai se repetir no futuro. Mas acham que para que isso não aconteça, é preciso repensar a maneira como os recursos são distribuídos e aplicados.