17 de junho, 2005 - 17h41 GMT (14h41 Brasília)
A saída de José Dirceu do cargo de ministro da Casa Civil teve repercussão favorável no mercado e está sendo avaliada de forma positiva por analistas no exterior consultados pela BBC Brasil.
Para alguns, isso mostra que o governo agiu rápido, o que poderá aliviar a crise política.
Para outros, indica o fortalecimento dentro do governo da ala do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que é considerada a responsável pela política macroeconômica que tanto agrada os investidores.
Existe, porém, a constatação de que a situação política impedirá o avanço das reformas, como a autonomia do Banco Central ou a reforma tributária.
A possível transferência de Palocci para o lugar de Dirceu não é muito bem-vista por analistas, que preferem que ele fique onde está.
Tempo
Para Christian Vecchi, diretor do fundo de gerência de recursos Independent Global Managers, na Itália, esse "movimento forte mostra a vontade de encontrar uma solução rápida".
"Com um gesto tão firme, a impressão é que provavelmente dentro de pouco tempo a situação poderá voltar ao controle", disse.
Para o diretor de pesquisa para América Latina do banco West LB, nos Estados Unidos, Ricardo Amorim, a saída de Dirceu "está sendo vista de forma positiva, porque fortalece o grupo do ministro Palocci, que é o grupo visto pelo mercado como responsável pelas medidas de austeridade fiscal, controle monetário, enfim, pelo equilíbrio macroeconômico do país".
Para Vecchi, a reação do mercado a uma eventual substituição de Dirceu por Palocci dependerá de quem vai para a vaga de ministro da Fazenda.
"Palocci conta com uma certa confiança do mercado e para o mercado é importante coerência e previsibilidade. Será mais complicado se houver mudanças surpreendentes", explicou.
Já Amorim, diz que é preferível que Palocci fique onde está.
"A mudança colocaria Palocci em uma posição de coordenação política, o que pode ter um lado mais positivo, caso ele consiga uma coordenação mais eficiente com o Congresso e avanço em algumas reformas estruturais muito importantes, como a autonomia do BC, parte da reforma do judiciário, a reforma tributária", disse Amorim.
"Mas isso é extremamente difícil e eventualmente sua saída da economia diretamente poderia levar a uma dificuldade de avanços infraconstitucionais e indefinição de políticas de curto e médio prazo na parte do Ministério da Fazenda."
Menos barulho
Nuno Camara, chefe de pesquisa para a América Latina do Dresdner Kleinwort Wasserstein nos Estados Unidos, observa que "o mercado já não está precificando essas reformas".
A reforma do ministério, segundo ele, poderá ajudar a estabilizar a crise, mas é improvável que leve a maior apoio ao governo no Congresso.
Mesmo assim, ele observa que não interessa à oposição uma deterioração do cenário macroeconômico e que os fundamentos da economia brasileira estão fortes.
"No final, é possível que o Brasil saia dessa crise com um sistema político mais maduro o que, para o próximo governo, qualquer que seja, será positivo, pois facilitará o processo de aprovação de reformas", disse Camara.
'Sem prova'
Vecchi observa que o mercado aprendeu a avaliar melhor os emergentes, "especialmente o Brasil, onde a situação econômica é muito positiva".
Por isso, ele acha que o mercado vai ter "uma certa tolerância" em relação à crise política atual.
"O mercado financeiro se preocupou com as potenciais repercussões dessa crise política sobre a economia brasileira e sobre os mercados financeiros", disse Amorim.
"Mas essa preocupação vem diminuindo desde o final da semana passada, principalmente depois do depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) em que ele fez uma série acusações, mas não apresentou nenhum tipo de provas."