09 de junho, 2005 - 01h10 GMT (22h10 Brasília)
Marcia Carmo
enviada especial a La Paz
A poucas horas da sessão do Congresso Nacional, em Sucre, capital constitucional da Bolívia, que vai decidir se a renúncia do presidente Carlos Mesa será aceita, cresce a rejeição à possível posse do senador Hermando Vaca Díez como seu sucessor.
"Parlamentares vende-pátria. O Congresso deve ser fechado, e novas eleições gerais realizadas. O gás é nosso, não vendemos e não presenteamos", gritaram manifestantes, durante caminhada pacífica que reuniu no início da noite uma multidão de professores, estudantes, mineiros e outros, no centro de La Paz.
Outros diziam, entre aplausos: "Vaca e Cossio, a mesma coisa. Queremos outro". Mario Cossio é o presidente da Câmara dos Deputados e, de acordo com a constituição, também integra a linha sucessória presidencial.
Nesse clima, que incluiu protestos em vários pontos do país, menos violentos que na véspera, está marcada a sessão do Congresso.
Eleições já
Mas analistas e a imprensa boliviana já especulavam, na noite desta quarta-feira, sobre a possibilidade de o encontro ser interrompido ou de não ser realizado, já que os manifestantes dirigem-se, em massa, para Sucre.
Muitos estão decididos a tentar impedir que Vaca Díez assuma o poder.
"Queremos eleições gerais já", afirmam dirigentes dos sindicatos dos mineiros, dos homens do campo e dos professores.
Na última segunda-feira, Mesa anunciou, pela segunda vez, sua renúncia. No dia seguinte, voltou à TV, pedindo que Vaca Díez e Cossio deixem a responsabilidade para o presidente da Suprema Corte de Justiça, Eduardo Rodríguez, que deveria convocar eleições.
Mesa fez questão de ressaltar que, desta vez, sua renúncia é "irrevogável".
Na sessão dos congressistas, nessa quinta-feira, será analisado o pedido de Mesa e a posse de Vaca Díez.
Constituição
De acordo com a constituição nacional, após a renúncia do presidente (no caso Gonzalo Sanchez de Losada, que saiu em 2003) e do vice (Mesa), a linha sucessória cabe aos dois parlamentares.
"Gonzalo Sanchez de Losada, Mesa, Vaca Díez e Cossio são farinha do mesmo saco. Implementaram um programa econômico que só fez aumentar a pobreza no país e, abriu caminho para o capital estrangeiro explorar nosso gás", reclamou o deputado Evo Morales, do MAS, numa das suas tantas entrevistas à imprensa.
A atual crise boliviana explodiu em maio, após a promulgação da lei de hidrocarburetos, sobre exploração de gás no país.
Nas ruas de La Paz, vendedores ambulantes vendem por 1 boliviano uma edição resumida e detalhada com todos os artigos da nova lei, o estopim dos conflitos.
Hoje, o assunto domina discussões de diferentes setores - não apenas dos mineiros - e é a marca de um debate que envolve o futuro político, social e econômico do país e o destino dos investimentos externos do ramo que aqui já tinham se instalado.