09 de junho, 2005 - 03h21 GMT (00h21 Brasília)
Hugo Estenssoro
Ninguém sabe na Bolívia, nem sequer os principais protagonistas políticos, o que vai acontecer com o país.
As soluções constitucionais e democráticas foram esgotadas com a renúncia do presidente Carlos Mesa.
Em termos legais, com a demissão de Mesa a presidência deve passar para o presidente do Senado, Hormando Vaca Díez, mas as forças de oposição o consideram inaceitável, apesar de pertencer ao Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR).
O mesmo acontece com presidente da Câmara dos Deputados, Mario Cossío, que é sumariamente rejeitado.
Só o presidente da Suprema Corte, Eduardo Rodríguez, parece ter certo apoio, talvez devido ao fato de não ser um político e por ter declarado que só ocupará o cargo até a realização de novas eleições.
Ora, Mesa tem prometido a mesma coisa várias vezes sem muito sucesso. O detalhe é importante.
Democracia 'participativa'
A jogada da oposição, tanto daquela que possui representação parlamentar – como é o caso de Evo Morales e seu partido Movimiento al Socialismo (MAS) – como dos sindicatos e outras organizacões, parece ser o de quebrar o sistema político para demonstrar sua inutilidade.
Os analistas que assim pensam lembram do antecedente fornecido pelo período 1982-1985, quando os movimentos populares virtualmente se apossaram do governo graças às convulsões políticas, substituindo a democracia representativa pela “participativa”.
As eleições de 1985 deixaram claro que estavam longe de serem tão populares como pareciam.
Os paralelos com a situação atual são evidentes.
Apesar de ser a segunda força política do país, o MAS não conseguiu nas urnas mais de 20% dos votos.
Para um partido que promete mudar radicalmente o regime e o sistema econômico do país, essa porcentagem é obviamente insuficiente. Daí o impasse.
Os setores radicais não podem obter uma maioria, e a maioria que se lhe opõe está tão dividida que não chega a ter peso eleitoral ou político.
Mentor
Isso explica uma inesperada atitude de Evo Morales.
O líder dos “cocaleros” – o minúsculo setor dos cultivadores da folha de coca – tem rejeitado sem ambigüidades as propostas de golpe militar de outros líderes radicais.
Os analistas acreditam ver nisso a mão do mentor de Morales, o presidente venezuelano Hugo Chávez.
Nas condições atuais, Morales poderia obter uma maioria eleitoral mesmo com pouco mais de 20 por cento dos votos, o que lhe permitiria, como a Chávez, realizar seu programa radical dentro de um marco democrático.
Com isso, os dois principais produtores de gás do continente, Venezuela e Bolívia, poderiam unir forças.
Preocupação
Os países vizinhos e clientes da Bolívia, inclusive o Brasil, consideram essa possibilidade com grande preocupação.
Para os Estados Unidos isso representaria uma ameaça, pois os dois maiores produtores de gás do mundo, Rússia e Irã, não são exatamente aliados políticos.
A crise boliviana pode facilmente tornar-se uma crise regional.
Sinal do receio que inspira a situação boliviana é o plano de coordenação energética que estão elaborando Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, para aproveitar o gás produzido no Peru.
De fato, a bonança do gás poderia ser de curta duração para a Bolívia graças ao populismo nacionalista.
Isso já aconteceu na história boliviana, quando as minas de estanho – então a principal riqueza nacional, como é hoje o gás – foram nacionalizadas pela revolução de 1952.
Em poucos anos o custo de produção era mais alto do que o preço internacional do estanho.
O povo boliviano tinha se tornado dono único e soberano de empresas que davam prejuízo.