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08 de junho, 2005 - 15h24 GMT (12h24 Brasília)

Bruno Garcez

Frida Kahlo será 'mostra do ano' em Londres, diz curadora

Emma Dexter, uma das responsáveis pela mostra da mexicana Frida Kahlo que será inaugurada nesta quinta-feira no museu Tate Modern, de Londres, deixa a modéstia de lado ao dizer que a exposição será "sem dúvida a mostra do ano".

"Uma das coisas extraordinárias sobre Frida é que quase nunca houve mostras individuais dedicadas a ela em grandes museus", afirma a curadora.

"Esta exibição conta com 87 quadros. É muito se levarmos em conta que ela pintou apenas cerca de 150 peças", acrescenta Dexter, que demorou dois anos para montar a exibição.

Segundo ela, a abrangência da exposição serve para ilustrar a diversidade de tópicos e de estilos presentes na obra da pintora.

'Política e pessoal'

A curadora destaca o caráter confessional das pinturas da artista. Há vários quadros que retratam um aborto espontâneo sofrido por ela. Em diversas obras, Frida faz alusões às infidelidades cometidas por seu marido, o pintor Diego Rivera, e são inúmeras as referências ao acidente que quebrou sua coluna.

Mas a curadora frisa ser injusto considerar a artista auto-centrada . "Muitos acreditam que Frida era obcecada por si mesma, por isso fazia vários auto-retratos. Mas aqui é possível ver muito mais do que isso, como as pinturas de caráter político, suas naturezas mortas criadas e suas pinturas místicas ", diz Emma Dexter.

"Numa inversão curiosa, as pinturas de seu marido, Diego Rivera, que foi muito mais popular que ela em vida, parecem hoje datadas, mas as dela permanecem fortíssimas", acrescenta.

Diversas peças da mostra destacam a influência indígena na cultura mexicana e fazem referências à política mundial e de seu país.
'Hospital Henry Ford', retrata filho que a artista perdeu
'Hospital Henry Ford', retrata aborto sofrido pela artista

Em quadros como Auto-Retrato na Fronteira, Frida critica a suposta desumanização promovida pelo capitalismo americano, ao se retratar em meio a diversas indústrias que expelem uma fumaça espessa, com uma bandeira americana ao fundo.

Moisés, um dos quadros da mostra, é talvez a peça que reúne as mais variadas influências e temas presentes na obra da artista. A pintura se assemelha aos célebres murais da arte mexicana.

Na pintura, inspirada pela leitura de Moisés e Monoteísmo, de Sigmund Freud, o pai da psicanálise é colocado ao lado de Lênin, Marx, Gandhi, Stálin e Buda. Vê-se ainda imagens inspiradas na iconografia azteca, no cristianimso e nas religiões orientais. O centro do quadro é ocupado por um bebê dentro do ventre da mãe.

Universal

Para o diretor da Tate Modern, Vicente Todoli, Frida Kahlo conciliava um trabalho de tom pessoal, mas que não abria mão de influências externas. "Suas obras são muito originais, mas ela não estava alheia ao que se passava no mundo, como o cubismo, em Paris, e, claro, a obra de muralistas mexicanos, como seu próprio marido."

Para a jornalista francesa Sophie Van Tong, o apelo universal de Frida se deve ao fato de que "suas pinturas trazem influências do renascimento europeu. Além disso, podemos compartilhar de sua dor, que é muito forte".

"Sua obra traz muitas semelhanças com a arte da Polônia e dos países bálticos, devido a uma influência comum do imaginário católico. México, Espanha e Polônia possuem uma simbologia religosa muito rica, e Frida utiliza esses símbolos de maneira fantástica."

O diretor da Tate acredita que a obra dela vai além do caráter de ícone pop que Frida adquiriu nos últimos anos, após ter obtido fãs e colecionadores ilustres, como a cantora Madonna e de ter virado tema de biografias e de um longa metragem protagonizado por Salma Hayek.

"Muito antes de Madonna, ela já tinha fãs ilustres, como André Breton. Não há casos de muitas musas que tenham virado artistas de sucesso. Frida foi uma honrosa exceção."