27 de maio, 2005 - 10h25 GMT (07h25 Brasília)
Fui freqüentador do bairro boêmio do Soho. Lá passava, de manhã, ou de tarde, conferindo uma loja especializada em gibis antigos e outra em discos também antigos.
No meio dessas antigüidades, nunca liguei muito para a mais antiga das profissões, que lá é exercida mesmo em horas família.
Foram-se as lojas, ficaram as – deixemos de circunlóquios – prostitutas, que já estavam lá há mais de 300 anos. Os ingleses guardam e arquivam tudo.
Num velho tomo, podemos encontrar: em 1632, Anna Clarke foi multada em um xelim por exercer a prostituição.
Aqui não se mexe em nada tombado, mesmo sendo horizontais – e peço logo desculpas pelo infame jogo de palavras.
Moralização
Há sempre gente moralizando algo. Agora mesmo, as autoridades de Westminster, onde está situado o Soho, querem classificar 30 apartamentos como bordéis, a fim de tornar compulsória a sua venda e a compra pelo distrito, que, assim, os transformaria em acomodações mais, digamos, convencionais.
E lucrativas para as autoridades, confere?
Ninguém reclama das – e lá vem eufemismo – “damas da noite”, que não fazem barulho e não chateiam ninguém.
Como a Coletiva Inglesa de Prostitutas aponta, nunca uma mulher foi estuprada ou assassinada no Soho. Nicci Adams, porta-voz da Coletiva, diz mais:
“Há anos que essas propriedades são ocupadas por prostitutas. Neste sentido, os apartamentos são residências. O Soho é uma área única e a mais segura no país para a indústria do sexo.”
Batidas
A polícia está sempre dando uma batida no Soho em busca de imigrantes ilegais. Diz a polícia.
Bryan Burrough, que é apenas presidente honorário da Sociedade pela Preservação do Soho, nada tendo a ver com a Coletiva de Prostitutas, e garante que nem ele nem a sua Sociedade têm qualquer problema com os bordéis:
“ Só não gostamos é quando dão golpes nos turistas. Isso sim prejudica o bairro.”
Um porta-voz para o distrito de Westminster afirma que foram localizados e identificados 60 bordéis, ou propriedades, no Soho, ou seja, pequenos apartamentos em que o freguês sobe uma escada para ter o seu encontro amoroso, se assim podemos chamá-lo.
As autoridades querem se apropriar de 10 propriedades, cada uma com 2 ou 3 pequenos apartamentos, não visando as outras 50 propriedades ou bordéis.
Quer saber de uma coisa, distrito de Westminster: não enche, tá?