17 de maio, 2005 - 11h07 GMT (08h07 Brasília)
Flávia Nogueira
enviada especial a Cannes
O filme brasileiro Cinema, Aspirinas e Urubus será exibido oficialmente nesta terça-feira, no festival de Cinema de Cannes.
O longa dirigido por Marcelo Gomes está concorrendo na mostra paralela Un Certain Regard.
O filme conta a história de um nordestino, Ranulfo, fugindo da seca na década de 40.
Durante a sua jornada, ele encontra um alemão fugindo da 2ª Guerra Mundial, Johann, que percorre o sertão do Brasil em seu caminhão, vendendo aspirinas e exibindo filmes para pessoas que não conheciam nem a eletricidade, com o objetivo de ajudar nas vendas.
A partir do encontro em uma estrada no sertão nordestino, os dois iniciam a jornada.
'Experiências e sentimentos'
O diretor Marcelo Gomes diz que a história foi contada há dez anos por seu tio-avô Ranulfo Gomes, que também fugiu da seca em direção ao Rio de Janeiro.
“Eu aproveitei o mote dessa história para falar de coisas atuais, como o relacionamento entre pessoas de culturas diferentes. Eu queria falar de alteridade, ou seja, conhecer as diferenças do outro e a partir disso se conhecer melhor", disse.
"Eu queria construir um nordestino fugitivo da seca que se identifica com o problema do alemão, fugitivo da guerra".
“Contingências políticas e sociais desfavoráveis, todo país vive. A partir desses pontos os dois personagens se igualam e vão viajar pelo sertão dividindo experiências e sentimentos sobre a vida e falando sobre o tema maior do filme que, para mim, é a solidão.”
Ritmo lento
Cinema, Aspirinas e Urubus tem um ritmo lento, com longos silêncios, diferente da safra atual de longas brasileiros.
Gomes diz que esse filme é pessoal, que construiu o sertão de sua memória, um sertão silencioso e lento como a solidão que é o tema do longa.
“É o sertão que vi pela primeira vez, o sertão dos silêncios espaciais. Eu queria trazer estes silêncios para a história daqueles dois personagens, queria que o tempo do sertão impregnasse o filme, a alma dos personagens", explicou.
"O sertão também é um personagem. Eu queria que ele estivesse presente não pelo seu exotismo, mas pela sua geografia perene, seu sentimento de solidão que vai impregnar a alma dos personagens."
Marcelo Gomes diz que não criou o personagem Ranulfo, o nordestino, a partir de um estereótipo, mas criou como uma pessoa que, como todos, quer vencer na vida.
“Queria fazer uma pessoa árida, cheia de pretenção. Ele é nordestino e pode ter tudo isso também. Construí um nordestino que começa a ficar deslumbrado com toda aquela máquina de cinema, aquele caminhão que o alemão está trazendo", disse.
“Mas ao mesmo tempo, depois que o cinema, a aspirina e a tecnologia se tornam parte de seu dia-a-dia, ele acha rídiculo o deslumbre que os outros brasileiros tem com aquilo que é apresentado".
"O Ranulfo tem várias nuances, é assim que temos que refletir, temos que entender a nossa cultura, entendendo o que é diferente na cultura do outro, para até valorizar nossa própria cultura.”
Visibilidade
Para o cineasta, a indicação para a mostra Un Certain Regard é a chance de um filme de baixo orçamento ter alguma visibilidade no Brasil, pois sem a indicação talvez não fosse possível fechar acordos de distribuição.
“Eles receberam 1.560 filmes, selecionaram 52, e entre esses 52 está o meu. O que eu sinto que para eles (o festival) é importante é o fato de hora se identificarem com o personagem nordestino, hora se identificarem com o alemão", conta.
“O filme é muito honesto com os personagens. Eu trouxe um ator baiano para fazer o nordestino e um alemão para interpretar o alemão. Eu queria que o olhar deles sobre o Brasil, a experiência afetiva deles sobre o Brasil e também sobre a Alemanha, impregnasse o filme”, disse.
O vencedor da mostra Un Certain Regard, ganhador do prêmio Câmara de Ouro, será anunciado no sábado, junto com os vencedores da Palma de Ouro.