17 de maio, 2005 - 23h16 GMT (20h16 Brasília)
Anelise Infante
de Madri
Em um ano de governo o socialista José Luis Rodriguez Zapatero surpreendeu dentro e fora da Espanha. Retirou as tropas do Iraque, legalizou a situação de quase 700 mil imigrantes, aprovou o casamento entre gays e nesta terça-feira conseguiu a histórica autorização do Parlamento para negociar o fim do terrorismo com o grupo separatista basco ETA.
De um azarão eleitoral, quase desconhecido, até apelidado de "Bambi" pelos companheiros de partido, Zapatero está virando referência de político moderno na Europa.
A Espanha de Zapatero está mudando rápido e provocando reações também fora do país. O Vaticano queixou-se oficialmente da decisão do governo de permitir o casamento entre homossexuais e de acabar com a obrigatoriedade do ensino da religião católica nas escolas públicas.
Também já mostrou instatisfação com os planos dos socialistas de autorizar a eutanásia e levar à frente pesquisas com células-tronco.
Iraque
As medidas consideradas ousadas por alguns e nefastas por outros começaram em abril do ano passado, assim que o governo tomou posse. Os socialistas dizem que estão apenas cumprindo promessas eleitorais. Precisamente porque um dos principais pontos da campanha foi a retirada das tropas espanholas do Iraque. Zapatero já havia dito que seria sua primeira decisão.
"A retirada das tropas foi uma medida com muito peso. Certamente foi precipitada e da forma como aconteceu o governo comprou uma briga indigesta e desnecessária com os Estados Unidos", disse o cientista político Javier Elorza.
"A ninguém convém comprar briga com os EUA mas isso acabou tendo uma repercussão política imensa, primeiro porque agradou os ânimos dos eleitores espanhóis, reforçou a imagem de uma nova Europa unida e ainda chamou a atenção do mundo para esse jovem político. Foi uma jogada arriscada, com ganhos e perdas."
A primeira perda foi o fim das boas relações com a Casa Branca. Se o primeiro-ministro anterior, José Maria Aznar, tinha (como gostava de comentar à imprensa) um telefone vermelho de linha direta com George W. Bush, com Zapatero a sintonia é nula.
O Palácio da Moncloa (sede do governo espanhol) espera até agora que o governo americano responda ao telegrama de felicitações pela vitória eleitoral de Bush.
Direita e esquerda
A segunda dificuldade é mais caseira. As medidas tomadas pelos socialistas estão marcando a linha que divide o país entre direita e esquerda. Uma polarização histórica, já que o país passou por uma guerra civil nos anos 30 e que os políticos estão reacendendo.
"Não é uma polarização provocada. Houve a conjugação do 11-M (atentados de Madri) e o 14-M (data das eleições) e as tensões acumuladas da Era Aznar. O povo vinha acumulando desaforos como o desastre ecológico do Prestige, a guerra do Iraque e as informações imprecisas sobre o atentado. Isso criou uma inimizade irreparável entre um lado e outro", explicou a Catedrática em Sociologia da Universidade Autônoma de Madri, Carmem Navarro.
Para a socióloga, a disputa entre os dois principais partidos espanhóis está chegando à sociedade, que, segundo ela, está se fragmentando de forma "perigosa".
Apoio
Por enquanto o governo Zapatero conseguiu aprovar com facilidade todos os projetos levados ao Parlamento. Tem o apoio de todos os partidos da oposição, exceto o do conservador Partido Popular, do governo anterior. Na explicação
do próprio primeiro-ministro, o governo conseguiu esse apoio pela atitude de dialogar com todos.
"Realmente esse estilo está funcionando. Zapatero é moderado nas formas e ousado nos objetivos por isso consegue consensos e pode levar essa política adiante dentro e fora das fronteiras", disse o cientista político Javier Elorza.
"Veja o caso de Cuba. Conseguiu que Fidel Castro liberasse alguns dissidentes, poucos, mas o suficiente para desbloquear o processo com a União Européia. Enfrentou o Vaticano, mas chamou o representante da Santa Sé para conversar. Está conseguindo que o mundo pense que ele é moderno e o Partido Popular esteja isolado e aparente ser o retrógrado."
Na crítica dos conservadores o governo está destruindo valores. Por isso a Conferência Episcopal Espanhola, o Partido Popular e outras instituições preparam uma manifestação para o próximo mês em defesa de valores e leis tradicionais.
Por enquanto Zapatero tem ao lado os pequenos partidos, a maioria da população e o respeito de outros países. O chanceler alemão Gerhard Schroeder pediu-lhe ajuda na campanha eleitoral; Zapatero participou ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na mediação do conflito entre Venezuela e Colômbia e o presidente francês, Jacques Chirac, o chamou para a campanha do referendo sobre a Constituição européia.
A socióloga Carmem Navarro destaca que, dentro da Espanha, Zapatero também tem sido beneficiado pela falta de uma oposição forte.
"A direita ainda não soube assimilar a derrota eleitoral, nem ajustar-se como uma oposição razoável. Nessa conjuntura fica mais fácil fazer política. Até quando vai durar isso? Até que haja uma oposição consistente que permita o debate de idéias", disse a socióloga Navarro.
Na definição de um dos líderes históricos do Partido Socialista, Alfonso Guerra, "Zapatero tem esse aspecto de Bambi e aí está o perigo, porque ninguém sabe do que ele é capaz. Isso é ótimo".