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11 de maio, 2005 - 02h08 GMT (23h08 Brasília)

Diego Toledo
enviado especial a Brasília

Debates políticos ofuscam apelo comercial de cúpula

O primeiro dia de reuniões oficiais da Cúpula América do Sul-Países Árabes, em Brasília, foi marcado por declarações de teor político que deixaram em segundo plano a assinatura de um acordo comercial entre nações das duas regiões.

Em seus discursos durante o encontro, os líderes das delegações árabes que participam da cúpula defenderam o fim da ocupação israelense de territórios palestinos e o apoio à reconstrução do Iraque.

“A questão palestina está no centro das discussões internacionais”, disse o xeque Mohammed Sabah Al-Salem Al-Sabah, ministro das Relações Exteriores do Kuwait. “Como é que a gente pode discutir política e comércio sendo que ainda existe um país ocupado?”, disse o chanceler.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, afirmou que é preciso acabar com os conflitos no Oriente Médio, mas cobrou de Israel uma colaboração mais ativa ao processo de paz na região.

“A outra parte tem que frear a colonização, cumprir seus compromissos, retirar-se das cidades palestinas e liberar os prisioneiros palestinos de seus cárceres”, afirmou Abbas.

Iraque

O presidente do Iraque, Jalal Talabani, defendeu o combate ao terror e disse que a colaboração dos países sul-americanos é importante para fortalecer a independência iraquiana e permitir a retirada do país das forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos.

Talabani também não deixou de manifestar apoio à causa palestina e disse que os povos do Oriente Médio merecem desfrutar de liberdade, democracia e prosperidade.

“A solução do problema palestino abre as portas para a construção de um novo Oriente Médio, livre de armas, de agressão e de violência”, afirmou o líder iraquiano.

Em discurso durante a cúpula, Talabani também propôs a criação de um banco árabe e sul-americano para coordenar projetos de estímulo ao intercâmbio comercial entre as duas regiões.

O presidente do Iraque convidou as delegações sul-americanas a visitar o país e estudar a possibilidade de realizar investimentos na reconstrução iraquiana.

Acordo

Pela manhã, os quatro países fundadores do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) assinaram um acordo de cooperação econômica com o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês).

O bloco árabe é formado por seis dos países mais ricos da região: Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes, Kuwait, Omã e Bahrein.

O documento abre caminho para a negociação entre os dois blocos de uma lista de produtos que terão preferência tarifária no comércio entre árabes e sul-americanos, mas, na prática, representa apenas um passo inicial na aproximação dos dois grupos.

“É um grande acordo, um acordo pioneiro”, defendeu o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. “Há muita gente querendo assinar um acordo com a comunidade do Golfo, e o Mercosul está sendo o primeiro.”

Amorim disse ainda que acredita que o intercâmbio comercial entre o Brasil e os países árabes, que chegou a US$ 8,1 bilhões em 2004, pode dobrar dentro de um prazo de três anos.

Declaração final

Além de comentar as perspectivas de comércio entre as duas regiões, Celso Amorim também voltou a falar sobre as discussões para a elaboração de uma declaração final das delegações que participam da cúpula.

De acordo com o ministro, “cada um tem que julgar a seu modo” o conteúdo do documento.

“Eu só posso dizer que as manifestações que constam da declaração são manifestações que todos nós estamos de acordo”, disse o chanceler. “Cada país naturalmente fala de forma soberana sobre quais são as suas posições.”

A expectativa é de que o documento inclua uma manifestação de preocupação quanto às sanções impostas à Síria pelos Estados Unidos.

Outro trecho da declaração deve fazer referências ao combate ao terror e ao direito à resistência à ocupação estrangeira.

Ao final do primeiro dia da cúpula, Amorim também anunciou que a próxima edição do encontro será realizada no Marrocos, em 2008.

“Essa é uma idéia que veio para ficar”, disse o ministro. “Os participantes vislumbram não só o agora, mas o mecanismo de segmento, a continuidade da cúpula.”