09 de maio, 2005 - 12h39 GMT (09h39 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Um dos lances mais pacíficos da celebração dos 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial foi colocar Gerhard Schröder, o dirigente da derrotada Alemanha, no palanque na Praça Vermelha, em Moscou, para prestigiar nesta segunda-feira a parada da vitória dos aliados.
Para os dois grandes vitoriosos, EUA e Rússia, a comemoração está sendo marcada por troca de recriminações e momentos de tensão em meio a esforços protocolares para anunciar que está tudo bem nas relações entre Washington e Moscou, como ficou patente na visita de domingo de George W. Bush à dacha de Vladimir Putin, com o passeio no carro modelo Volga, ano 1956.
Putin está sendo vítima da própria grandiosidade da celebração, que ele passou anos organizando, e da ambição para melhorar o prestígio internacional do seu país.
Jovens repúblicas bálticas estragaram a festa lembrando que elas têm uma narrativa distinta da de Moscou dos eventos de 1945. Denunciaram que foram "ocupadas" e os russos, em uma linguagem orwelliana, insistem que as tropas soviéticas foram "convidadas" a marchar em países como a Letônia.
Passado
A atitude russa evidenciou novamente a dificuldade do país para aceitar honestamente o seu passado.
Sim, a Rússia sofreu 27 milhões de mortes na Segunda Guerra e foi crucial para a derrota do nazismo, mas a sobrevivência e o triunfo significaram a criação de um sistema opressor na região que persistiu até a derrubada do Muro de Berlim em 1989.
Para George W. Bush, a viagem de cinco dias pela região tem sido marcada pelo malabarismo diplomático: de um lado, o presidente americano deve lembrar que o fim do nazismo trouxe liberdade na Europa Ocidental, mas a ocupação soviética no leste e centro do continente; de outro, Bush precisa preservar o relacionamento estratégico com Putin e tem necessidade de cooperação em questões como proliferação nuclear, terrorismo e Oriente Médio.
Tudo fica ainda mais complicado diante dos constantes recados de Bush para Putin sobre o que ele considera pendores autoritários do dirigente russo, enquanto o Kremlin assiste com inquietação à sucessão de revoluções democráticas na sua zona de influência em países como Georgia, Ucrânia e Quirguistão, que foram celebradas por Washington, assim como pela União Européia.
Advertências
À mensagem de Bush para não interferir no florescimento democrático ao redor de suas fronteiras, Putin reage com advertências para o presidente americano deixar de se intrometer nos negócios das ex-repúblicas soviéticas.
Em uma entrevista no domingo à noite à rede de televisão CBS, o presidente russo repetiu que Bush não tem moral para dar sermão democrático pois chegou ao poder em eleições controvertidas no ano 2000.
Apesar das escaramuças, o pragmatismo ainda rege o relacionamento entre EUA e Rússia. No entanto, as tensões tendem a crescer.
A própria festa grandiosa na Praça Vermelha foi mais uma evidência do empenho de Putin para reconquistar parte das glórias passadas da superpotência soviética.
E Bush, de certa maneira, é refém de sua agenda de segundo mandato de disseminação global da democracia, embora modere a dose de entusiasmo quando estão em jogo interesses estratégicos e econômicos dos EUA em países como a Arábia Saudita, a China e a própria Rússia.