04 de maio, 2005 - 16h49 GMT (13h49 Brasília)
Paulo Cabral
do Cairo
Depois de anos de uma aparente estabilidade, o governo egípcio vem agora sofrendo mais pressão por mudanças.
Nesta quarta-feira em que completou 77 anos, o presidente Hosni Mubarak teve de passar o aniversário ouvindo notícias sobre manifestações contra seu governo. Os protestos reuniram milhares de pessoas, espalhadas por diversas cidades do país. Há relatos de que cerca de 200 pessoas foram presas.
Protestos assim, contra o governo Mubarak e contra as leis de emergência no Egito – que nasceram juntos em 1981 – têm se tornado cada vez mais constantes. Nas últimas semanas, o Cairo também assisitiu a atentados violentos, que não aconteciam desde meados dos anos 90.
A oposição promete continuar a colocar mais pressão e está confiante que o governo não tem condições e nem interesse em aumentar a repressão contra os grupos anti-governo.
“O governo pode usar táticas para tentar impedir grandes demonstrações mas não acho que Mubarak vá apelar para métodos mais violentos. O governo egípcio está preocupado em manter para o mundo uma imagem de abertura e democracia e não quer prejudicar isso”, disse o cientista político da Universidade Americana do Cairo Mustafa Kamal al-Sayed.
Eleições
Pela lei atual, de 1952, o Parlamento – dominado pelo governista Partido Nacional Democrático – deve indicar um candidato único a respeito do qual os eleitores podem dizer apenas sim ou não.
A oposição, de forma unânime, elogiou a proposta de emenda, mas ressaltou que ela ainda está longe de permitir eleições efetivamente abertas.
Um dos motivos é que os mais fortes grupos de oposição do Egito – os movimentos secular Kifaya (Basta, em árabe) e religioso Irmandade Islâmica – não podem constituir partidos ou indicar candidatos.
O líder da Irmandade Islâmica, Essam el-Erieyn, disse que o grupo ainda tem a esperança de conseguir lançar um candidato ou, talvez, apoiar o escolhido de alguma outra agremiação.
“A estratégia é fazer mais e mais pressão. Nós estamos vivendo sob uma ditadura e não posso imaginar que os egípcios vão aguentar muito mais tempo disso”, disse El-Erieyn.
Repressão
“Nós estamos no fim de um regime. O governo egípcio não tem força para aumentar a repressão ainda além dos altos níveis que já enfrentamos”, disse o oposicionista.
El-Erieyn não acredita que os atentados a bomba acontecidos no Cairo – o mais recente, no último sábado, deixou um Egípcio morto e quatro estrangeiros feridos – faça parte da pressão oposicionista sobre o governo.
“Não sabemos direito o que aconteceu. Pode ter sido algum ataque independente, pode ter sido uma vingança ou mesmo a atuação de algum grupo de inteligência ligado ao governo”, disse.
Mas o líder islâmico evitou nas respostas uma condenação explícita e geral a qualquer ato de violência.
Basta
Um dos líderes do movimento Kyfaia, o jornalista Abdel Kandel, diz que os atentados violentos que aconteceram no Cairo são reflexo do desespero de parcelas da população egípcia.
“Se não houver alguma mudança que permita melhores condições sócio-econômicas, a violência também não vai parar”, diz o ativista, que também evita condenar muito diretamente as explosões.
As condenações mais explícitas aos ataques vêm – além do governo – de partidos de oposição que já estão mais institucionalizados e se preparam para disputar eleições pela primeira vez este ano.
O presidente do partido moderado Tagamoa, Rafat al-Sayed, diz que todos no Egito são contra as ações violentas e que elas chegam a ajudar o governo Mubarak.
“Quando dizemos que chegou a hora de acabar com as leis de emergência que vigoram no país, muita gente no governo responde que isto não é possível porque ainda há violência acontecendo. Esse ataques não ajudam nem um pouco a avançar a causa da oposições”, diz.
Mas o político não acredita que o governo possa intensificar a repressão contra as oposições para tentar contar o crescimento delas.
Mas Rafat al-Sayed, que é também historiador, diz que seu partido têm consciência de que as possibilidades de bater Mubarak nas eleições – mesmo que abertas - são insignificantes.
“O que sempre digo aos meus alunos é que situações que foram atingidas historicamente tem que ser mudadas historicamente. A opção é uma revolução e disso ninguém está falando agora”, diz.
Equilíbrio
A oposição diz que as eleições não vão ser livres – mesmo que a lei mude – porque há um excessivo aparelhamento do Estado nas comunidades e na mídia.
Os oposicionistas dizem que para que possam entrar na corrida em condições semelhantes aos governistas, é necessário que as autoridades locais parem de interferir e que a mídia estatal – de longe a mais importante no Egito – passe a cobrir os dois lados com mais equilíbrio.
O cientista político Mustafa al-Sayed observa que também não está ainda claro quais serão os mecanismos que constarão da nova lei eleitoral.
“Uma das propostas prevê que o parlamento, que é dominado pelo partido do governo, possa vetar o nome de qualquer candidato. Líderes árabes são muito bons nesta estratégia de propor mudanças que atraem alguma atenção mas que na prática mudam muito pouco”, disse.