26 de abril, 2005 - 15h29 GMT (12h29 Brasília)
Sebastian Usher
Muitos no Líbano duvidaram até o minuto final de que aconteceria realmente, mas a Síria finalmente retirou todas as suas tropas do país.
O que os soldados estão deixando para trás – além dos restos de suas bases e postos de controle – são mais do que indagações sobre o futuro do Líbano sem sua presença.
A primeira questão prática é sobre o quanto a retirada é realmente completa, tanto de tropas quanto - mais importante aos olhos sírios - de agentes do serviço secreto sírio.
Uma equipe de especialistas da ONU vai verificar se a retirada foi de 100%. Se a retirada receber o selo de aprovação da organização, parte das suspeitas do Líbano sobre a sinceridade Síria terá sido dissipada.
Acordos
Mas o envolvimento da Síria no Líbano vai muito além da presença de suas tropas.
Desde que a guerra civil libanesa finalmente chegou ao fim sob os auspícios da Síria, o país tem sido a principal fonte de poder no Líbano.
Uma geração de políticos libaneses teve que fechar acordos com Damasco para poder governar o país.
Mesmo alguns líderes da oposição anti-Síria não ficaram imunes a isso. E muitos são realistas sobre a influência Síria.
O veterano líder druso Walid Jumblatt – que tem sido um dos principais porta-vozes da oposição – disse recentemente: “A segurança do Líbano está ligada à da Síria e vice-versa. Nós não queremos, Deus não permita, nos tornar um centro de conspirações contra a Síria”.
A oposição espera que as eleições parlamentares, marcadas para antes do fim de maio, dê a eles o balanço de poder.
Mas é improvável que ocorra uma caça às bruxas de políticos ligados à Síria.
Para muitos libaneses o simples fato de que as eleições vão acontecer – depois de temores de que talvez elas tivessem que ser adiadas – já é razão para otimismo.
As preocupações de que a instabilidade do país poderia levar a novos conflitos agora não parecem tão urgentes.
Mas as tensões entre os diferentes grupos no Líbano – principalmente entre cristãos, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas e drusos – estão sem dúvida muito mais claramente definidas do que antes.
A ocupação Síria escondia essas divisões e não conseguia acabar com elas.
Choque
Desde o choque do assassinato de Rafik Hariri, o mais proeminente político do país, as conversas em público falam apenas de unidade.
Mas em particular, velhos antagonismos e temores voltam rapidamente à tona.
Qualquer novo governo no Líbano terá que encarar e resolver essas tensões.
Se ele não abordar esse problema, a segurança no Líbano pode ser minada.
Claro, esse foi o argumento de Damasco e de seus partidários durante anos – que apenas a presença de suas tropas poderia assegurar que o Líbano não cairia em conflitos sectários.