15 de abril, 2005 - 12h45 GMT (09h45 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
John Allen está tendo seus 15 minutos de fama e dias intermináveis de trabalho. Com seu jeito de seminarista, ele se tornou o mais conhecido (e respeitado) vaticanista da imprensa americana.
Allen aparece na CNN, fala na National Public Radio, dá entrevistas a outros jornalistas menos versados nos rituais e bastidores da Santa Sé e seus palpites sobre a sucessão de João Paulo 2º são levados a sério, embora o mundo esteja no escuro sobre quem será o novo papa.
Para Allen, o cardeal brasileiro Claúdio Hummes é fraco no carisma pessoal, mas é forte candidato com seu "profundo senso de justiça social".
Allen parece que se preparou toda a vida para este momento. Seu trabalho rotineiro é ser correspondente no Vaticano do semanário independente National Catholic Reporter, baseado em Kansas City.
O conhecimento profundo e didático de Allen sobre o universo católico costuma ser reunido em livros. Um deles foi uma biografia do todo-poderoso cardeal alemão Joseph Ratzinger, um férreo defensor da doutrina conservadora do Vaticano e outro favorito nas apostas papáveis.
Mas este é um bom momento para revisitar Conclave, a visão concisa e informal de Allen sobre o processo de eleição do papa, que foi publicado no Brasil em 2003 pela editora Record.
No livro estão as leis que supostamente regem a escolha do papa: o movimento pendular, ou seja, a necessidade de um novo pontifície que compense as fraquezas (e alguns pontos muito fortes) do antecessor; a eventual preferência por um papa de transição antes de um longo mandato como o de João Paulo 2º; e nacionalidade, que era uma questão inexistente quando o Vaticano era uma espécie de clube privado italiano.
Desafios
Cinco grandes desafios estarão diante do futuro papa:
1) Colegialidade, que em linguagem de leigo quer dizer se será afrouxada a centralização no Vaticano imposta por João Paulo II.
2) Diálogo inter-religioso. A questão crucial aqui será o relacionamento com o islamismo.
3) Globalização, pobreza e justiça. A teologia da libertação foi abafada, mas não o engajamento social da Igreja.
4) Bioética, família e sexualidade. São temas cada vez mais explosivos, em particular no Primeiro Mundo.
5) Papel da mulher na Igreja. Até onde o Vaticano irá conter a revolução feminista?
A parte mais interessante do livro de Allen é a a discussão do que ele qualifica de "partidos políticos" no Colégio de Cardeais. Ele não fica atolado em categorias como "progressistas" e conservadores.
Allen faz a divisão em três congregações:
- Patrulha da Fronteira: são os cardeais preocupados com o impacto de relativização e secularização da Igreja católica. Encabeçados pelo alemão Ratzinger, são os homens da linha dura, empenhados em manter intocáveis os valores, tradições e rituais. Para esta linha, Igreja não é um concurso de popularidade. Os incomodados não devem se queixar com o bispo. Eles que se mudem. Melhor uma Igreja menor, mas disciplinada.
- Sal da Terra: é a ala ansiosa para diminuir o muro entre a Igreja e o mundo. São cardeais que não acreditam que a Igreja deva mergulhar no seu universo interno e ficar paralisada por debates teológicos. O foco é lá fora e não nos temas institucionais. No lugar da discussão eclesiástica, o engajamento em questões como pobreza e guerra. O interessante é que os cardeais desta ala podem ser tanto liberais, como conservadores. O fundamental é usar a influência da Igreja para mudar o mundo.
- Reforma: são os cardeais mais interessados em mudar as estruturas internas da Igreja, avançando o trabalho do Concílio Vaticano Segundo. Este grupo favorece a descentralização da Cúria e mais tolerância da diversidade para tornar o papado mais aceitável em termos ecumênicos. A chave é colocar o Vaticano a serviço das igrejas locais para que ele deixe de ser o seu senhor implacável. Mais poder para os bispos e mulheres.
Como de hábito, John Allen se mostra informal e bem informado. Ele não elucida os mistérios do Vaticano, mas nos ajuda a trafegar por suas catacumbas.
Conclave
Editora Record
256 páginas