15 de abril, 2005 - 20h15 GMT (17h15 Brasília)
Valquíria Rey
de Roma
Na teoria, um papa pode quase tudo. Na prática, porém, o poder papal raramente é usado na sua plenitude.
Envolto no sagrado poder que lhe confere o cargo de sucessor de Pedro e o dogma da infalibilidade papal em questões de fé e de moral, o papa pode modificar, ou até mesmo ignorar, as leis que regem o Vaticano.
Em tese, o próximo pontífice poderia, por exemplo, ter uma posição completamente diferente da atual sobre o celibato dos sacerdotes, a postura da Igreja em relação à sexualidade, ao papel da mulher e à manipulação genética.
No entanto, especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam que um papa trabalha de acordo com as limitações do seu tempo.
"Não é ditadura"
"Nunca na história um papa usou todo o poder que lhe é dado. A Igreja não é uma ditadura militar, nem um regisme castrista. O poder da infalibilidade deve ser usado com prudência, com cautela”, diz o historiador do cristianismo Alberto Melloni, autor do livro Como se faz um papa – História do Conclave.
"O papa tem o poder de defender a doutrina, não de inventá-la".
Segundo Melloni, um papa tem limitações de poder. Algumas jurídicas e a maioria de bom senso.
Conforme o historiador, quando muda um papa, a Igreja vive um momento de regeneração. As coisas mudam, porque a continuidade absoluta é um mito tradicionalista que, na prática, nunca existiu.
Mas, de acordo com ele, tudo dependerá das pessoas que estarão próximas do papa.
"Consenso interno"
Outro estudioso de assuntos relativos a vida de papa, Glauco Benigni diz que o sumo pontífice tem em suas mãos um poder absoluto. Mas, para exercitar esta faculdade, ele precisa de tempo e de um consenso interno.
"Teoricamente, o papa pode fazer e desfazer o que ele considera justo", afirma Benigni. "Na prática, ele deve levar em consideração, o equilíbrio interno do poder".
O escritor e vaticanista Giancarlo Zizola diz que o papa é filho e irmão da Igreja. Não está acima dela. Não pode mandar sozinho.
É papa, porque, antes de tudo, é bispo de uma comunidade cristã, que é Roma.
De acordo com Zizola, o papa tem todo o poder que deriva de seu ministério. Mas este poder não é decisivo.
O próprio nome do papa na tradição da Igreja mais antiga, de acordo com ele, é servo dos servos de Deus. Com essa concessão de serviços, o papa se faz um irmão entre irmãos.
É por isso que existe o conclave e a fase pré-conclave. Um grande debate para escolher aquele que deve ser considerado o mais adequado para a sociedade e o mundo atual.
Segundo Zizola, ele não vai ser um revolucionário. Um cardeal com a determinação de mudar radicalmente a Igreja não seria eleito papa.
Pode governar um pouco mais à esquerda como João 23, ou mais à direita como João Paulo 2º. Não muito além disso.
No entanto, fala-se hoje da necessidade de um papa menos dominador que João Paulo 2º, que não vá impor tanto a sua visão, mas permitir que as opiniões de outros ajudem a redefinir a estrutura da Igreja e acabar com as divisões e decepções existentes.
Alguns teólogos e bispos defendem a recuperação de outros níveis de autoridade, inclusive das conferências episcopais e igrejas locais.
O vaticanista Salvatore Mazza não é otimista sobre a ocorrência de mudanças que marquem época. De acordo com ele, as alterações na Igreja ocorrem lentamente. Um grande terremoto não acontecerá.