30 de março, 2005 - 11h50 GMT (08h50 Brasília)
Quando eu frequentava pub, gostava de ficar sentado apreciando a turma dos dardos.
Ou o que dava para se ver dela, sempre oculta atrás de uma cortina de fumaça, barrigaços e copázios de cerveja.
Da prática, sabia pouco mais do que sei de cricket.
O objetivo é arremessar três dardos (de tungstênio, diga-se) num alvo concêntrico, dividido em números.
E o número mágico era 180 pontos com três dos dardos.
Aí parei. Os tipos me pareciam mais interessantes do que a prática.
Eu disse prática? Pois disse-o mal.
Em fevereiro, a Organização Britânica de Dardos (a OBD) lançou uma campanha destinada a forçar o governo a reconhecer o jogo de pub como esporte, sem aspas.
Como estamos em ano eleitoral e é de sete milhões o número de praticantes dos dardos de pub, tudo é possível.
Uma batelada de advogados virou, se mexeu e cravou (bom verbo) 180 pontos junto à entidade que rege as atividades esportivas na Grã-Bretanha.
Semana passada, o popular passatempo passou à nobre categoria de esporte oficial com direito, inclusive, de disputar Olimpíada, se assim concordarem outras autoridades.
A primeira providência foi uma faxina na imagem do jogo.
Acabou-se a beberragem de chopes (ao menos abertamente) e o fumacê da cigarrada (também abertamente).
Os torneios passam agora a receber o patrocínio de – quem sabe? – tênis de grife, e não cervejaria ou tabaqueira.
Médicos de reputação ilibada e barriga lisinha foram requisitados a prestarem seu depoimento: não tem por onde, o jogador de dardo caminha uma média de 20 km por partida.
Meia maratona, por assim dizer. Se isso não é esporte, então o que será?
O ministro-adjunto para Esportes, Richard Caborn, deu todo apoio à bem sucedida campanha.
Tudo isso é, ou vai ser, muito bonito.
O que eu quero agora é um bom pub onde barrigudos tabagistas pratiquem, rindo alto entre palavras de baixo calão, o arremesso do martelo ou do disco.
E que todos os responsáveis pela nova respeitabilidade conferida aos dardos sofram no peito o arremesso de um belo e potente dardo olímpico – daqueles atuais.