30 de março, 2005 - 14h49 GMT (11h49 Brasília)
Paulo Cabral
do Cairo
As dificuldades enfrentadas pelos parlamentares no Iraque para chegar a um acordo não estão surpreendendo, mas estão frustrando as expectativas criadas pelo "sucesso" das eleições realizadas há exatos dois meses (nesta quarta-feira) no país, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.
As eleições foram louvadas ao redor do mundo pela surpreendente participação eleitoral, e os iraquianos foram elogiados pela coragem de ir às urnas, mesmo sob a ameaça de violência.
Na terça-feira, na segunda sessão do Parlamento desde as eleições, uma parlamentar disse ser um absurdo que os 8 milhões de iraquianos que votaram tenham agora de esperar tanto para ter um governo.
A chave do impasse estava na mão dos xiitas e dos curdos, as duas principais forças no Parlamento, que têm que fazer um acordo quanto à nomeação do novo governo.
Mas na terça-feira, os sunitas voltaram ao centro das atenções quando não conseguiram chegar a um acordo interno para escolher o presidente do Parlamento.
Embora não sejam maioria, os sunitas comandaram o Iraque por toda a história recente do país mas perderam força nas eleições, principalmente devido ao grande boicote à votação promovido na comunidade.
"Com o pequeno número de sunitas na assembéia, este cargo (a Presidência do Parlamento) não nos colocará numa posição de equilibrio", disse o presidente interino do Iraque, o sunita Ghazi al-Yawer.
O editor da revista egípcia Política Internacional, Ossama El-Ghazali, diz que os iraquianos estão ficando ansiosos para ver o processo eleitoral resultar de uma vez num governo funcionando.
Paciência
"Os iraquianos estão ficando muito preocupados e podem perder a paciência e a confiança no processo eleitoral. Isso pode ser um caminho para o desespero", diz.
Mas El-Ghazali não acredita que as dificuldades nas negociações políticas sejam suficientes para levar mais gente para a luta armada.
"Estas pessoas que estão esperando não são as mesmas que participam da insurgência. Acho que são dois processos separados", avalia.
O cientista-político também acredita que não vai demorar muito mais tempo para que os iraquianos cheguem a algum acordo sobre o novo governo.
"É muito natural que esteja demorando, porque este é um processo muito complicado. Dois meses para formar um governo parace muito tempo se observado dentro dos critérios de uma eleição normal", diz. "O caso no Iraque é especial".
Advertências
As dificuldades para colocar em acordo os grupos étnicos, religiosos e tribais do Iraque eram bem conhecidas e já se revelaram em outros momentos da história do país.
Mas analistas dizem que o relativo sucesso das eleições acabou aumentando as expectativas - interna e externamente - e fazendo com que os problemas que viriam a seguir ficassem em segundo plano.
"O governo americano falhou ao falar tanto sobre o sucesso das eleições e não advertir mais claramente que aquilo era só um começo e que certamente seria seguido de muitos problemas", disse o pesquisador do Insituto Brookings, de Washington, Ivo Dobbler.
Para ele, a melhor maneira de o governo americano ajudar agora é evitar qualquer interferência.
"Os iraquianos têm que aprender, por eles mesmo, como passar de um cultura política de violência para outra de negociações e acordos. É um processo muito importante, mas que leva algum tempo", diz.
Dobbler diz que nunca acreditou na teorias de que o sucesso das eleições iraquianas teria um efeito positivo sobre o processo democrático em outros países do Oriente Médio.
"Há dinâmicas internas que determinam o que acontece em cada um destes países. Não acho que as eleições tiveram impacto positivo e também não acho que o impasse político terá qualquer influência negativa."
O pesquisador também diz que os problemas políticos no Iraque ainda não começaram a ter impacto no governo americano.
"O assunto está sendo pouco tratado aqui nos Estados Unidos e ainda não houve nenhuma grande reação da opinião pública a isso. O equilíbrio de poder dentro do governo continua estável e não deve ser afetado agora por esta crise", avalia.