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04 de março, 2005 - 19h46 GMT (16h46 Brasília)

Bruno Garcez

Samba vira trilha sonora do ativismo político na Europa

Os ativistas políticos europeus decidiram atacar em uma nova frente, utilizando tamborins, agogôs e surdos.

O samba está se tornando a trilha sonora informal de manifestações políticas em diferentes capitais européias.

Um dos principais grupos de sambistas-ativistas é o londrino Rhythms of Resistance (Ritmos da Resistência), que conta com cerca de cem integrantes.

Além deles, há grupos de sambistas-ativistas em cidades tão diversas como Paris, Barcelona, Praga e até mesmo Tóquio e Seattle, onde um das mais destacados grupos é Infernal Noise Brigade (Brigada Infernal do Som).

Anonimato

Os sambistas-ativistas têm práticas bem distintas das vistas nas cerca de 300 escolas de samba da Grã-Bretanha.

Os membros do Rhythms of Resistance, por exemplo, são avessos a aparições na TV, colam slogans antiglobalização em seus instrumentos e não gostam de divulgar seus sobrenomes.

Após cada um de seus ensaios semanais, eles põem os instrumentos de lado para discutir estratégias políticas e qual a próxima manifestação da qual devem fazer parte.

Outra distinção é a dança que acompanha o ritmo tocado pelo Rhtyms, mais ligada a modalidades afro do que às conhecidas evoluções de passistas de escolas de samba.

A semelhança com técnicas de bailado afro não é casual, como conta Kate, professora de dança do Rhythms of Resistance.

Ela afirma que o grupo se inspirou em blocos afro da Bahia, como o Ilê Ayê, devido ao uso que tais conjuntos fazem da percussão e da dança "para oferecer uma mensagem política e educar sua comunidade".

Segundo Kate, o samba atinge diferentes povos com igual impacto, algo refletido em sua origem.

"Ele é uma fusão de três continentes. Por isso é muito apropriado usar um ritmo assim em uma comunidade multicultural, porque ele atrai diferentes culturas e diferentes pessoas. O samba em protestos políticos chama a atenção de todo mundo", afirma.

Multiculturalismo

O multiculturalismo é também uma marca do Rhytms of Resistance. O grupo conta com integrantes de países tão diversos como Grã-Bretanha, Itália, Espanha e até Brasil.

O argentino Diego D é um ator que nunca havia tido envolvimento político, mas que se encantou com o trabalho do grupo.

"Eu me juntei ao Rhythms of Resistance porque eles contam com o sentimento carnavalesco de promover uma resistência bem-humorada, típico dos que estão na escala mais baixa da sociedade. Essa alegria irracional nunca se encontra entre os que estão no topo".

Samba x tecno

De acordo com Ben RoR, o mestre da bateria do grupo, o uso do samba foi uma progressão natural entre os militantes.

No início, ele conta, os manifestantes usavam carros de som que tocavam músicas de rave, "um estilo que não é do agrado geral".

"O samba é bem mais criativo, soa mais alegre e mais é mais convidativo", afirma Ben.

Ainda que usem o estilo brasileiro em suas manifestações, o Rhythms of Resistance não vê com bons olhos a proliferação de escolas de samba no Brasil e no mundo inteiro.

Em seu website, a banda diz que esse crescimento é resultado da "comercialização da cultura de resistência".