17 de fevereiro, 2005 - 12h17 GMT (10h17 Brasília)
De longe os portões embandeirados de nylon vermelho lembram aquelas manifestações chinesas dos tempos de Mao Tse Tung ou um quadro das dinastias imperiais.
Pela televisão, a arte de Christo não comove. Não tem a imensidão de uma muralha nem a graça das milhares de barracas de praias que o artista instalolu nos campos do Japão e da Califórnia.
Os Portões de Christo saem melhor nas fotos. Elas transmitem a grandeza e o colorido, mas não o espírito e a leveza que trouxeram ao parque.
Talvez seja deslumbramento meu, contaminado por um dia de sol e temperatura de primavera no meio inverno, mas não fui um caso isolado. No fim de semana a multidão parecia contagiada pelo vírus de ânimo e bom humor transmitido pela instalação de Christo. Arte é capaz destas coisas .
Febre
Em 1940, I Am Thinking of My Darling, um romance de Vincent McHugh, contava de uma febre tropical que atacou Nova York num dia ameno de fevereiro.
Os moradores abandonaram os maus empregos e os maus casamentos.
Todo mundo transava nas ruas. Não havia nenhum tipo de preconceito nem repressão.
Os bancos distribuiam dinheiro e os bares serviam bebidas de graça. A febre, feliz ou infelizmente, durou apenas uma semana.
Os Portões de Christo vão ficar 16 dias no Central Park.
Parece pouco para um projeto que lutou 24 anos contra os burocratas e custou 20 milhões de dólares que vieram do próprio criador e sua mulher Jeanne Claude.
Vírus milagroso
Eles dizem que a curta duração faz parte do encanto.
O casal se sente gratificado e talvez não saia no prejuízo.
São 7,5 mil portões, 100 mil metros quadrados de nylon, 165 mil porcas e um número igual de parafusos.
Parece um tremendo lixo mas um tubo de papelão descartado, usado para enrolar as cortinas, foi leiloado na internet e recebeu uma oferta de US$ 1,2 mil.
O dono achou pouco e desistiu da venda. Prefere ficar com o tubo.
O vírus deste Christo é milagroso.