14 de fevereiro, 2005 - 17h53 GMT (15h53 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
O Irã e a Coréia do Norte de fato integram um "eixo do mal", na visão americana.
Em comum nas crises nucleares envolvendo aqueles dois países, o governo Bush tem más estratégias para enfrentá-las. Em parte, o fracasso decorre da falta de alternativas atraentes, tanto em termos diplomáticos, como militares.
Há três anos, o presidente George W. Bush apontou o Irã, a Coréia do Norte e o Iraque como integrantes de um "eixo do mal". No Iraque aconteceram mudanças, e a Casa Branca espera que o país se torne peça vital em alguma espécie de "eixo democrático" no Oriente Médio.
Nos outros dois países, o governo Bush está no limbo. Está relutante em lançar um vigoroso empenho diplomático para resolver a crise, mas tampouco tem apetite ou condições para cartadas militares. Em meio a estas incertezas, Washington sofre golpes e empurra as crises enquanto der.
Contra a parede
No caso norte-coreano, foi o anúncio explícito do regime comunista de que tem armas nucleares e do abandono das negociações multilaterais, que envolvem, além dos EUA, a Coréia do Sul, a China, o Japão e a Rússia.
No caso iraniano, foi a declaração do regime xiita de que nunca abandonará o seu direito de desenvolver o que qualifica de um programa nuclear pacífico.
A postura de ambos os países pode ser tática de negociação, mas de qualquer forma coloca o governo Bush contra a parede.
Por quanto tempo ele poderá manter a indefinição, sem adotar uma posição mais determinada, seja na diplomacia, seja na frente militar?
Os regimes de Pyongyang e Teerã avançaram suas ambições nucleares justamente depois que Washington adotou uma doutrina de ataque preventivo na esteira dos atentados do 11 de setembro.
No caso norte-coreano, o governo Bush ironicamente estaria em um terreno bem mais sólido do que no Iraque em 2003 para justificar alguma ação militar.
Afinal o próprio regime comunista assume que tem armas de destruição em massa.
É verdade que não há evidências de testes, o que torna mais fácil para os EUA minimizarem a gravidade da crise, algo que convém neste momento em que a Casa Branca carece de boas opções para agir.
A curto prazo, Washington poderá desenvolver alguns esforços para isolar economicamente a Coréia do Norte ainda mais, apesar da relutância da Coréia do Sul e da China em impor penalidades sobre o país.
Superfalcões
Há o apelo pró-forma de Washington para que os norte-coreanos retornem às negociações multilerais, com a rejeição da proposta de conversações bilaterais.
São dois anos de ciranda diplomática sem resultados proveitosos.
Para os superfalcões americanos, a conversa nunca vai dar em nada mesmo e eles desconfiam que os parceiros nas negociações estão dispostos a oferecer concessões excessivas tanto em termos econômicos como em garantias de segurança aos norte-coreanos em troca da desativação do programa nuclear.
A mesma reticência dos superfalcões americanos existe no caso do Irã, com o qual negociam três países europeus (Grã-Bretanha, França e Alemanha).
A diferença óbvia é que Pyongyang está claramente desenvolvendo um programa nuclear com fins militares, em uma mistura de medo, paranóia e oportunidade para manter um controle orwelliano sobre sua população. Faria mais sentido apostar nas negociações com Teerã.
Tempo
Há variantes na postura do governo Bush. A Casa Branca ao que tudo indica foi pega de surpresa pelo anúncio norte-coreano.
Não esperava retrocessos justamente quando moderava o seu tom beligerante.
Bush, por exemplo, praticamente não fez referência ao regime de Kim Jong Il no seu recente discurso sobre o Estado da União.
No caso iraniano, a retórica está mais passional, com apelos por uma mudança de regime em Teerã como parte da nova onda democrática do governo Bush.
Washington assegura que não irá à guerra nos dois casos e isto parece ser uma garantia razoável.
No caso iraniano, a secretária de Estado Condoleezza Rice foi explícita. Ela disse na Europa que não há planos, por ora.
O governo Bush ganha tempo, assim como Kim Jong Il e os setores mais duros do regime xiita do Irã.