31 de janeiro, 2005 - 14h06 GMT (12h06 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Para o presidente George W. Bush e o seu aliado mais fiel na empreitada iraquiana, Tony Blair, faz todo sentido cantar vitória após a eleição de domingo.
A eleição aconteceu. Houve menos violência do que se temia e, ao que tudo indica, um comparecimento acima do esperado.
Rápido no gatilho, quatro horas após o encerramento da votação, Bush definiu o processo eleitoral como um "sucesso retumbante". Aqui é preciso ver o referencial.
Nas semanas que antecederam o pleito, as autoridades americanas baixaram como puderam as expectativas, enfatizando que o ponto fundamental não seria o número de votantes, mas o processo eleitoral em si.
Adjetivos retumbantes à parte, a eleição – algo tão raro no mundo árabe – foi um sucesso.
Há mais alívio do que triunfalismo na Casa Branca após a eleição. Muitos erros foram cometidos pelos americanos, e algumas lições aprendidas nestes dois anos de intervenção no Iraque.
Custo alto
As tropas não foram recebidas como libertadoras, as armas de destruição em massa não foram encontradas, a insurgência foi subestimada e o custo do pós-guerra (em vidas e em dólares), bem acima do esperado.
Ademais, para Bush, a empreitada gerou acirrados debates domésticos e amargas divisões internacionais.
Não é à toa que o presidente esteja cauteloso e tenha constatado o óbvio: o sucesso eleitoral por si não neutraliza a insurgência e se trata de um primeiro passo em um complexo processo político.
Claro que Bush está fazendo o que pode para capitalizar este sucesso. Para ele e os seus aliados, a eleição legitima a estratégia de disseminar a democracia no Oriente Médio.
A rigor, esta estratégia se tornou a pedra de toque da política externa americana para a região, assim que ficou patente que não existia o tal arsenal de armas de destruição em massa de Saddam Hussein que, em primeiro lugar, justificou a invasão do Iraque em março de 2003.
Além da insurgência, um desafio imediato no Iraque é acomodar o maior número possível de sunitas ao processo político.
Regras do jogo
Para a Casa Branca, existem algumas regras no jogo da transição: os iraquianos não podem implantar uma teocracia pró-iraniana.
Se isto acontecer, a estratégia eleitoral terá sido um "fracasso retumbante".
Mas mesmo setores neoconservadores nos EUA advertem que é hora do governo Bush começar a se desengajar do processo político no Iraque, apesar da tentação de beneficiar o primeiro-ministro interino, o xiita secular Ayad Allawi.
Também crescem as pressões por um desengajamento militar. A oposição democrata precisou, é claro, saudar o sucesso eleitoral de domingo, mas está cada vez mais empenhada na ofensiva da "estratégia de saída" do Iraque, algo popular com a opinião pública.
Por ora, a Casa Branca resiste às pressões para fixar uma data para iniciar a retirada de suas tropas do Iraque.
Por ora, os soldados americanos são os guardiões do "sucesso retumbante" apregoado pelo comandante-em-chefe George W. Bush.