29 de janeiro, 2005 - 20h43 GMT (18h43 Brasília)
Paulo Cabral
do Cairo
A preocupação de líderes árabes com a perspectiva de que grupos xiitas ganhem um poder significativo no Iraque tem sido um tema constante da imprensa árabe nos últimos dias.
Na edição desta sexta-feira do jornal Al-Sharq Al-Awsat, uma publicação em árabe editada em Londres mas amplamente distribuída em todos os países árabes, o rei Abdullah, da Jordânia diz temer a reação sunita às eleições.
Outro líder da região, o presidente sírio, Bashar al-Assad, manifestou uma preocupação semelhante em declarações a outro jornal Al Hayat, também editado em Londres e com circulação no mundo árabe.
"Governo árabes temem, ao mesmo tempo, o clima de democracia que pode emanar das eleições iraquianas e as movimentações do Irã (cujo governo e a grande maioria da população são xiitas) para ganhar espaço e influência com o resultado destas eleições", diz uma reportagem no jornal Asharf al-Aswat.
Divisões
Os xiitas constituem menos de 20% da população total de muçulmanos no mundo, mas são maioria no Irã, no Bahrein e no Iraque, além de terem grupos significativos no Líbano e na Arábia Saudita.
Só no Irã, no entanto, os xiitas –cerca de 90% da população – estão no poder.
A possibilidade do triunfo xiita nestas eleições iraquianas é esperada não só pela preponderância deste grupo étnico no país como também pelo fato de suas principais lideranças estarem apoiando o processo e pedindo aos seus seguidores que votem.
Entre os sunitas as divisões são mais profundas com importantes lideranças pedindo um boicote às eleições, alegando que o país está sob ocupação ou justamente que a votação tende a favorecer a maioria xiita.
Curdos
Na Turquia, por sua vez, a preocupação é em relação aos efeitos que a eleição terá sobre a sua população curda.
Há nos jornais árabes referências ao temor de que os turcos tentem de alguma maneira influenciar o processo eleitoral entre os curdos do norte do Iraque, que já vivem com relativa autonomia política.
Enquanto a opinião mais generalizada é a de que os iraquianos têm o direito de votar e que a eleição não pode mais ser adiada, pouca gente se arrisca a dizer que o resultado que sair das urnas vai ser justo e de fato representar o desejo da maioria da população. E além disso, há o medo dos efeitos negativos de eleição como essa.
O principal deles é que o sunitas – um grupo minoritário mas que no tempo de Saddam Hussein dominava o país – não aceitem pacificamente o provável aumento do poder e da influência dos xiitas.
Também não se sente na opinião pública árabe a impressão de que a violência no Iraque possa diminuir depois das eleições.
A opinião mais comum é que muita turbulência ainda está pela frente no país.