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23 de janeiro, 2005 - 13h41 GMT (11h41 Brasília)

Bruno Garcez

Para iraquianos em Londres, voto é 'sonho tornado realidade'

Em toda a Grã-Bretanha, acredita-se que até 150 mil iraquianos se registrem para participar da eleição presidencial, marcada para 30 de janeiro.

Eles vão votar em postos situados em Londres, Manchester e Glasgow. Em Londres, a expectativa é de que até esta terça-feira - quando termina o prazo, já prorrogado, para o registro - cerca de 50 mil pessoas tenham se habilitado a votar.

O temor de possíveis antentados fez com que o posto eleitoral londrino, montado pela Organização Internacional de Migração, responsável em rastrear os eleitores iraquianos, conte com detectores de metais e diversos agentes de segurança.

O sentimento, entre os iraquianos ouvidos pela BBC Brasil em Londres, é de uma expectativa muito positiva em relação à votação e de que o pleito não deve ser adiado, mesmo em meio aos constantes atos de violência no Iraque.

Saad al Sarif, diretor de uma agência de publicidade em Londres, afirma que a eleição é "um sonho tornado realidade".

De acordo com al Sarif, "após 20 anos lutando contra a injustiça e a opressão, todas as pessoas podem exercitar seus direitos e se livrar do modelo antigo do Oriente Médio, onde um homem só decide por toda a nação, mantém um país inteiro refém e privar a voz de todos. Essa velha mentalidade tem que ir embora".

Adiamento

Al Sarif é contrário a adiar a votação devido à situação de segurança no Iraque. "Se a eleição for adidada, haverá uma crise de autoridade e o país pode mergulhar no caos."

"Não creio que haverá cisões internas em meio à votação. Xiitas e sunitas são pessoas pacíficas. Se fosse para haver atos de vingança contra antigos partidários de Saddam Hussein, isso já teria acontecido, pois todos sabem quem eles são", disse.

O treinador de futebol Hossein Ilali, que mora em Londres há 12 anos, também acredita que a votação pode sanar possíveis divergências. "As eleições porão fim às diferenças entre xiitas e sunitas. O benefício é para o povo iraquiano como um todo. Não acredito nessas divisões. Quando me perguntam se sou sunita e xiita, digo apenas que sou iraquiano."

Mas há quem pense que o pleito acabou alijando segmentos da sociedade iraquiana. É o caso do comerciante Hassan Saif.

"Acredito que a eleição deveria ser adiada por um período breve, pois importantes facções dos iraquianos, como os sunitas, não estão representados na votação, o que é absurdo. O outro motivo é que é difícil para os iraquianos saber quem são os candidatos. Eu próprio não sei quem representa as tendências políticas nas quais acredito. E uma eleição não é uma loteria", comenta.

O ceticismo de Saif parece ser minoritário entre os iraquianos que estão se registrando. O médico Mohaiman Jamil acredita que os eleitores têm condições de obter informações sobre os candidatos.

O registro eleitoral acabou se tornando um programa em família para Jamil. Ele trouxe sua tia, sua mãe, de 84 anos, e seu filho, de 20. "Só não veio mais gente porque eles não cabiam no carro", brincou.

Sua mãe, Shukria Abdul Kadr, afirma que votar é uma necessidade. "É meu país. Tenho que ajudar. Estou feliz em participar."

Até mesmo iraquianos há muito exilados em Londres estão empolgados. É o caso de Taleb Arem, um dono de restaurante que mora há 26 anos na cidade.

De acordo com ele, o voto é a chance que os iraquianos têm de mostar "o que realmente querem".

"A votação irá provar que a violência no Iraque não conta com plena aprovação popular, como muitos pensam. Adiar seria um erro. Esperamos pela democracia por centenas de anos. Não podemos esperar mais."