07 de janeiro, 2005 - 08h21 GMT (06h21 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
O curso das águas e a ira da natureza (ou, se preferirem, de Deus) podem mudar o rumo da história.
Talvez os tsunamis do final de 2004 no sul da Ásia não tragam o fim de nenhuma civilização ou de algum governo miserável, mas o recém-publicado livro de Jelle Zeilinga de Boer e Donald Theodore Sanders traz as sóbrias lições da história.
Ondas, ventos e tremores sísmicos têm o poder de derrubar impérios, modos de vida e estruturas de pensamento. O impacto pode ser literalmente de proporções bíblicas. Afinal se acredita que Sodoma e Gomorra tenham sido destruídas por terremotos, o que foi narrado de forma tão vívida no Velho Testamento.
No Dia de Todos os Santos, 1 de Novembro de 1755, um terremoto abalou as fundações de Lisboa, trazendo destruição maciça a um dos centros de poder e de cultura da Europa. Mais de 10 mil pessoas morreram imediatamente.
O terremoto arrasou o porto e varreu grande parte da herança cultural portuguesa. Torres de catedrais desabaram sobre multidões de devotos que rezavam naquele dia sagrado.
A resposta social a um choque da natureza pode ser maior do que o choque em si.
Com o Grande Terremoto de Lisboa ascendeu ao poder o déspota esclarecido Marquês de Pombal e os jesuítas desabaram, assim como tantas catedrais. O impacto foi sentido das tertúlias intelectuais de Paris às missões religiosas no Paraguai.
O terremoto de 1755 levou a Europa a repensar o papel da Igreja no mundo secular.
Cientistas acreditam que o abalo em Lisboa tenha atingido 8,5 na escala Richter (que não existia naquela época), quase tão poderoso como o maremoto do dia 26 de dezembro passado no sul da Ásia.
No seu livro, de Boer e Sanders observam que "o terremoto em Portugal é considerado o mais catastrófico na história européia".
O abalou reverberou além-fronteiras, além-mares e no interior do universo intelectual.
Os autores escrevem que a devastação em Lisboa "levou as pessoas educadas na Europa Ocidental, lideradas pelo filósofo francês Voltaire, a questionar a filosofia do otimismo esposada por pensadores do século 18 como Leibniz, Pope e Rousseau".
Outro impacto foi uma revolução científica. A catástrofe reduziu a influência do dogma da Igreja que atribuía aqueles desastres à ira de Deus e não a causas naturais.
Em contrapartida, na Inglaterra, o líder evangélico Charles Wesley usou o mesmo abalo em Lisboa para advertir que a natureza é a "arte de Deus" e pobres daqueles que não se submetem ao mandato do Todo-Poderoso.
Nos EUA, o mais famoso terremoto aconteceu em 1906 e arrasou San Francisco. A tragédia não abalou a fé dos californianos em Deus e sim em autoridades, varridas do poder porque eram corruptas.
Choque semelhante aconteceu em 1972 na Nicarágua. O terremoto que destruiu parte de Manágua e causou 9 mil mortes foi fator que contribuiu para o fim da ditadura Somoza.
O desvio de verbas expôs de forma escancarada a venalidade do regime. Algo similar teve lugar na Cidade do México.
A incompetência e corrupção que se seguiram ao terremoto de 1985 apressaram o fim de 71 anos de poder autocrático do PRI. De fato, há alguns poucos males que vêm para bem.
EARTHQUAKES IN HUMAN HISTORY
Jelle Zeilinga de Boer e Donald Theodore Sanders
Princeton University Press
267 páginas, US$24.95