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01 de janeiro, 2005 - 05h37 GMT (03h37 Brasília)

Eric Brücher Camara

Atuação do Brasil pode gerar protecionismo, diz ex-diretor da OMC

O poder de influência de países em desenvolvimento como o Brasil, a China e a Índia deve trazer à tona tensões que podem provocar uma onda protecionista no comércio mundial.

A opinião é do primeiro diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Peter Sutherland, que disse ainda, em entrevista exclusiva à BBC Brasil, esperar que essas novas pressões levem a um fortalecimento da organização.

"Isso transforma o reforço da OMC em uma questão de importância vital para proteger o sistema global de comércio, que é a melhor garantia não só para a prosperidade econômica, mas também para a paz global", afirmou Sutherland.

O atual presidente do conselho da British Petroleum (BP) e da Goldman Sachs International lidera um grupo de oito especialistas, entre eles o embaixador brasileiro Celso Lafer, encarregados de elaborar o relatório "O Futuro da OMC".

O relatório deve propor mudanças no funcionamento da organização, que completa 10 anos em janeiro.

Segredo bem guardado

Os detalhes do livro estão sendo guardados a sete chaves, e Sutherland – que dirigiu a organização entre 1993 e 1995 – evitou falar sobre qualquer assunto que pudesse antecipar o conteúdo do documento.

"Em linhas gerais, posso dizer que acho muito importante que os países-membros da OMC reconheçam que, embora seja bom que se busquem acordos de liberalização regionais, como o Mercosul e a expansão da União Européia, no fim das contas, a instituição vital e supervisora do processo de liberalização global é a OMC."

Sutherland também alerta para o perigo de acordos comerciais preferenciais e discriminatórios entre alguns países em detrimento de outros.

"Acho que deveríamos continuar a depositar a nossa fé na Organização Mundial do Comércio", resumiu o ex-diretor-geral da OMC.

'Lei da selva'

Para Sutherland, dez anos depois de sua criação, a organização se transformou num importante instrumento de defesa dos interesses dos países mais fracos economicamente.

"Acho que a OMC desempenha, sim, um papel fundamental, já que um sistema baseado em regras é bastante preferível à lei da selva."

Recentemente, o Brasil confirmou a importância desse sistema ao conseguir vitórias decisivas na OMC em questões como os subsídios distribuídos aos produtores de algodão nos Estados Unidos e de açúcar na União Européia.

Peter Sutherland também elogiou a atuação do Brasil na OMC nos últimos anos e previu tempos difíceis para os países desenvolvidos.

"Os países que mais provavelmente vão rejeitar o sistema baseado em regras no futuro são os do hemisfério norte", concluiu o ex-diretor-geral da instituição.