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10 de dezembro, 2004 - 08h03 GMT (06h03 Brasília)

Márcia Carmo
enviada especial a Cuzco

Sem metas, integração sul-americana pode levar décadas, dizem analistas

Um dia depois do lançamento da Comunidade Sul-Americana de Nações, analistas ainda olhavam com cautela para o nascimento do novo bloco, que contará com 12 países.

Ouvidos pela BBC Brasil, eles concordaram que o futuro do mundo está nos blocos políticos e econômicos, mas que persistem as dúvidas sobre a capacidade de a América do Sul tornar o novo bloco uma realidade.

Os professores de política internacional da Universidade de Lima, Fabián Vallas, e da Universidade de San Marcos, Carlos Aquino Rodríguez, entendem que essa integração não vai virar realidade em 15 anos, conforme ficou combinado no encontro na quarta-feira em Cuzco.

Ambos entendem que, para que esta integração seja como a União Européia (UE), se um dia ela chegar a ser, pode demorar o dobro do tempo, 30 anos, ou mesmo "muitas décadas", como disse Carlos Aquino.

Assessores presidenciais de países com fortes relações com os Estados Unidos, como o Chile, a Colômbia e o México, também mostraram preocupação com uma "ideologização" do novo bloco.

Sem cronograma

Aquino foi mais crítico ao enfatizar que a reunião de quarta-feira não definiu sequer um cronograma para que esta união já comece a dar seus primeiros passos reais. "Infelizmente, os governos perceberam que não adianta definir metas. Eles já sabem que elas dificilmente serão cumpridas", disse o acadêmico.

"A União Européia começou de outra forma e demorou 40 anos para chegar a lançar sua moeda única. Além disso, a integração foi sempre uma política de Estado, não importando o presidente que esteve no poder. Na América Latina, cada presidente que assume pode apagar as medidas do anterior. Isso gera incertezas nos empresários e fica difícil envolvê-los na integração", afirmou Aquino.

Para ele, ambição demais e disputas internas mal-resolvidas, como as que ocorrem entre o Brasil e a Argentina e entre a Venezuela e a Colômbia podem limitar o novo bloco "a uma utopia".

Aquino acredita, porém, que as vantagens da região frente à UE são as riquezas naturais, como petróleo e recursos florestais. Ao mesmo tempo, a geografia da região, que envolve os Andes e florestas como a amazônica, tornarão mais longo e complicado o processo de integração física.

Na sua opinião, as rodovias, pontes, acordos nos setores de energia e telecomunicações devem ser mesmo, como pretendem as autoridades do bloco, o primeiro objetivo do grupo.

"Mas não será fácil conseguir recursos para essas empreitadas. Por isso, é preciso envolver logo o empresariado nessa integração. Deles dependerá que essa união vire realidade. Com estradas funcionando, eles mesmo tomarão a iniciativa de exportar mais, de buscar novos mercados, favorecendo a economia dos países", ressaltou o acadêmico.

'Norte'

O analista Fabián Vallas foi mais otimista. Para ele, o importante foi o grupo de países do Mercosul, a Comunidade Andina e o Chile definirem "um norte".

Vallas e Aquino concordaram que a situação hoje é diferente de outras épocas, quando já se falava na união da região. O mundo pede "emergência" na integração. "Ou, como disse o presidente do Chile, Ricardo Lagos, a globalização vai nos comer integralmente", destacou Fabián Vallas.

Para Carlos Aquino Rodríguez, até agora, concretamente, só foi feita "uma declaração de desejo" de que a Comunidade Sul-Americana de Nações vire realidade.

"Vamos por etapas. Primeiro, tentar conseguir a ligação física, depois o livre comércio de produtos e o livre trânsito de pessoas, para só então pensarmos em moeda e Parlamento únicos", disse.

"Hoje, um peruano precisa de passaporte para ir ao Brasil. E na mão inversa também. Como integrar, num prazo de menos de duas décadas, se ainda nos olhamos desta maneira tão desconfiada?"

"Temos um processo que vai levar muitas décadas", ressaltou Aquino.