O anúncio, na semana passada, de que o ator Tom Hanks vai estrelar a versão para o cinema do best-seller O Código Da Vinci, pode ter alegrado os milhões de fãs do livro no mundo inteiro. Mas na França, alguns deles já não podem mais ouvir falar no assunto.
O guia turístico Michel Rouge trabalha na igreja de Saint Sulpice, em Paris, um dos locais que, no livro de Dan Brown, esconde um dos principais segredos do código Da Vinci e é cenário de uma das mortes mais brutais provocadas por Silas, o monge albino e assassino da Opus Dei.
Exceto pelo fato de que a Opus Dei, uma organização católica, não tem monges. Nem é uma seita. E a igreja de Saint Sulpice não esconde o segredo descrito por Dan Brown. Por isso, Rouge, o guia, sorri e explica que não se importa com a horda de turistas que têm visitado o local por causa do livro.
"Desde que eles não se comportem mal quando eu disser que a trama não é verdadeira", disse ele à BBC.
Cartazes
Assim como 17 milhões de pessoas do mundo inteiro, Rouge leu O Código Da Vinci e gostou. Mas o que o preocupa é a introdução, que afirma que todas as descrições de obras de arte, arquitetura e rituais secretos são fiéis.
Até certo ponto.
A igreja de Saint Sulpice indubitavelmente existe. Mas não possui um templo romano. Nem, segundo Michel Rouge, o obelisco que há no local esconde uma caverna secreta. Aliás, o obelisco nem é egípcio, como mencionado no livro.
Foram tantos os turistas perguntando onde ocorreu o assassinato da freira, que a administração da igreja teve de espalhar cartazes dizendo que os acontecimentos do livro são pura ficção.
Mas, segundo a correspondente da BBC em Paris, Caroline Wyatt, alguns visitantes se recusam a acreditar e roubam os cartazes.
Eles acusam Rouge de tentar proteger a Igreja Católica, mas que agora, graças a Dan Brown, sabem a verdade – que Jesus era casado com Maria Madalena e que seus filhos deram à luz gerações e gerações de reis da França.
O guia turístico dá de ombros e levanta as sobrancelhas em atitude cética. "Apesar de tudo, estou contente de que mais pessoas venham à igreja, qualquer que sejam seus motivos", afirmou.
Não-ficção
O gesto de indiferença também é adotado pela Opus Dei, que no livro é descrita como uma seita rica, poderosa e violenta.
No site da Opus Dei, a entidade colocou um aviso que diz: "Esperamos que os leitores de O Código Da Vinci interessados na história do Cristianismo se animem a estudar os livros disponíveis também na seção de Não-Ficção das livrarias".
A correspondente Caroline Wyatt conversou com o assessor de imprensa da organização, Arnaud Gency, por telefone.
Gency também leu o best-seller, e afirmou que, para ele, o grande mistério do romance é a sua popularidade.
"Talvez muitos estejam procurando valorizar o lado espiritual da vida, especialmente aqueles que não têm muitos conhecimentos históricos ou culturais em onde basear suas crenças. Ou seja, os americanos", disse Gency.
Mas como ele explica o sucesso do livro na França?
"Quando você o lê, tem a sensação de estar aprendendo bastante. E os franceses adoram isso. Mas quando você se dá conta de que o que Dan Brown escreve está, na verdade, errado, é uma grande decepção. Pelo menos na França...", explicou o assessor da Opus Dei.