02 de dezembro, 2004 - 10h57 GMT (08h57 Brasília)
Lucas Mendes
De Nova York
Tom Brokaw era o bom moço, o adolescente de bons modos, boa aparência, estudioso e confiável que jamais entrava em confusões nem tirava proveito das moças de Yanktown, um lugarejo na Dakota do Sul.
Com apenas 22 anos, a mesma confiança que o bom moço transmitia aos seus bucólicos vizinhos estava sendo enviada eletronicamente pela televisão para milhões de desconhecidos. Brokaw era o apresentador do jornal local de Los Angeles.
De lá ele foi cobrir a Casa Branca e depois entrou na equipe do programa matinal da rede NBC, o Today Show, uma espécie de Bom Dia Brasil, onde informava com menos formalidade e a mesma segurança.
Há 21 anos, quando apenas três redes de TV dividiam a audiência americana, Tom Brokaw sentou na cadeira do âncora da NBC, da qual se despediu ontem.
Deu furos, fez excelentes entrevistas e foi o único âncora americano cobrindo ao vivo a morte do muro de Berlim.
Tempo e tecnologia
Aos 64 anos, ele é o mais jovem dos âncoras das grandes redes.
Dan Rather, da CBS, tem 73 e vai se aposentar em março.
Peter Jennings tem 66 e nenhum plano de sair do ar.
Os âncoras estão sendo tragados pelo tempo e pela tecnologia.
Quando Brokaw começou sua carreira, a câmera que usava era com filme de 16 milímetros e sem som.
Hoje ele fala a qualquer momento com seu correspondente em Bagdá, que em questão de segundos abre uma câmera eletrônica e joga a imagem no ar, ao vivo.
Apesar do peso, os ancoras não conseguiram segurar a audiência.
Ela está à deriva.
No lugar deles, temos 24 horas de notícias por dia, via cabo ou satélite, e barcos anárquicos como os blogs atravessando mares nunca dantes navegados.
Vamos sentir sua falta, Tom. Boa noite.