29 de novembro, 2004 - 19h44 GMT (17h44 Brasília)
Paul Reynolds
A Organização das Nações Unidas (ONU) deve ser reformada a fim de facilitar as intervenções em Estados enfraquecidos, concluiu uma comissão da própria ONU.
Conforme apurado pela BBC, o painel, que examinou como a ONU poderia responder melhor a ameaças globais, também pede para que o Conselho de Segurança seja aumentado.
O relatório é apontado como a maior proposta de reforma da ONU desde 1945.
Acredita-se que se a ONU mostrar maior prontidão para agir, haverá menos chances de unilateralismo por parte de Estados-membros.
Há um ano, em meio às divisões internacionais em relação ao Iraque, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, alertou que a ONU estava em uma "encruzilhada".
Ele disse que a organização tinha que revisar suas políticas básicas para lidar com as ameaças de terrorismo mundial, armas de destruição em massa e proliferação nuclear.
Annan pediu ao painel de 16 diplomatas e políticos, presidido pelo ex-primeiro-ministro da Tailândia, Anand Panyarachun, que examinasse como a ONU deveria ser reformada.
O caminho que o painel deve defender é muito mais intervencionista, distanciando-se da tradicional ênfase da ONU de não se intrometer em assuntos internos de um Estado-membro.
Intervenção armada
A BBC foi informada que, entre as principais conclusões do painel, estão solicitações para uma comissão de paz com o objetivo de monitorar locais com possíveis problemas, oferecer ajuda e conselho, dar alertas e, como um último recurso, preparar o caminho para uma intervenção armada.
O painel quer que os Estados-membros aceitem uma nova obrigação: a "responsabilidade de proteger" seus próprios cidadãos.
Se eles não o fizerem, então a intervenção pelo Conselho de Segurança seria muito mais provável do que com os atuais procedimentos da ONU.
No momento, o Conselho pode ordenar intervenção e um Estado-membro pode agir em auto-defesa, caso haja uma ameaça iminente.
O Conselho pode declarar uma ameaça à segurança internacional, mas a definição é vaga e o procedimento é de difícil controle.
O relatório recomenda que o Conselho seja mais disposto a agir, embora de acordo com cinco critérios estritos:
Para agir, o Conselho ainda dependeria de uma votação. A ONU não teria sua própria força de paz, embora vários membros do painel queiram isso.
Definição de terrorismo
Entre as outras conclusões, o painel sugeriu que as ameaças à segurança internacional deveriam ser definidas amplamente e deveriam incluir pobreza, pandemias como Aids e desastres ambientais, não apenas ameaças de armas de destruição em massa, guerras e Estados falidos.
O Conselho de Segurança deve ser aumentado de 15 membros para 24 – os cinco membros permanentes, os Estados Unidos, a Rússia, a China, a Grã-Bretanha e a França, devem manter seus assentos e seus vetos (qualquer mudança a isso não seria aceita, como foi sentido).
No entanto, o painel não recomenda como isso deve ser feito e simplesmente oferece dois modelos.
No primeiro, haveria mais membros permanentes sem direito a veto. No segundo, haveria alguns membros semi-permanentes que devem ser votados no Conselho a cada quatro anos.
O conceito de terrorismo seria definido pela primeira vez, tornando-se parte de uma convenção internacional. Terrorismo significaria qualquer ação tendo como alvo não-combatentes e civis.
Para ajudar a parar a disseminação de armas nucleares, países deveriam ter, automaticamente, direito para conseguir o fornecimento de combustível para suas plantas de energia nuclear, sob orientação da Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA), contanto que estejam de acordo com o regime de inspeção.
Essas inspeções devem ser drasticamente enrijecidas.
Organizações internacionais, como a União Africana, devem ser reforçadas.
Qualquer operação de manutenção de paz deve ser financiada pela própria ONU, e Estados-membros pagariam automaticamente.
O G8 (os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia) deve ser expandido e mudado. Uma das idéias é aumentar o grupo para 20, incluindo países em desenvolvimento.
A Comissão de Direitos Humanos da ONU deve ser revigorada com mais ativistas e menos diplomatas nas delegações.
O relatório será agora avaliado pelo secretário-geral e, então, pelos Estados-membros.
Qualquer mudança institucional, provavelmente, entrará em vigor com lentidão, mas o impulso foi dado: a ONU precisa mudar ou perderá seu papel.