11 de novembro, 2004 - 21h43 GMT (18h43 Brasília)
Alexandre Mata Tortoriello e Cláudia Silva Jacobs
de São Paulo e Londres
O presidente da China, Hu Jintao, chegou nesta quinta-feira ao Brasil acompanhado por 150 empresários para uma visita de Estado de cinco dias.
Segundo analistas, os chineses estão interessados nos recursos naturais do Brasil para ajudar a manter seu nível de crescimento econômico médio acima de 8% ao ano.
"Nossa economia se desenvolve muito rapidamente e precisamos urgentemente de mais recursos naturais, muitos minerais; e podemos obter isso na América Latina", diz o diretor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Qinghua, em Pequim, Xue Mou Hong.
"A China é o segundo maior importador mundial de ferro e aço, e a Companhia Vale do Rio Doce fornece 20% desse ferro. Nos primeiros nove meses deste ano, a empresa vendeu 30 milhões de toneladas à China", acrescenta o historiador Eric Vanden Bussche, que viveu vários anos na China.
Soja
Ele ressalta ainda que a Vale negocia a construção de um pólo siderúrgico em São Luís (MA) em parceria com a empresa Baosteel, de Xangai.
Além do minério de ferro brasileiro, segundo produto na pauta de exportações para a China, representando 17,7% do total, a China tem interesse em outros recursos naturais latino-americanos, como o petróleo da Venezuela e as reservas de cobre do Chile, o maior exportador desse produto no mundo.
O país andino será a terceira escala do giro de Hu Jintao na América Latina, que inclui também Argentina e Cuba.
Apesar de fornecer produtos que alimentam parte do rápido crescimento econômico chinês (minério, laminados planos, couros e peles, petróleo e semimanufaturados de ferro e aço), o principal produto de exportação para o país asiático continua sendo a soja, responsável por 36,3% do total.
'Estratégico'
O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang, um dos principais promotores da aproximação comercial entre os dois países, acredita que o Brasil poderá assumir um papel mais importante para a China.
"Nada como o Brasil para fornecer à China os produtos estratégicos para seu crescimento e para a alimentação do seu povo", destaca Tang, referindo-se à população de 1,3 bilhão de habitantes.
"A China produz apenas um terço de suas necessidades de soja. Não tem condições de suprir a grande demanda que o mercado e o povo chinês têm hoje."
"E, de agora em diante, também veremos o crescimento cada vez maior de investimentos chineses no Brasil.”
Mercado pequeno
Apesar das afirmações otimistas, os negócios com o Brasil ainda representam pouco para a China, que é terceiro maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da União Européia e dos Estados Unidos.
A venda de produtos brasileiros para a China em 2003 foi responsável por apenas 1,1% das importações chinesas.
As exportações da China para o Brasil no mesmo ano representaram apenas 0,49% do total das exportações chinesas.
"O Brasil só descobriu o mercado chinês a partir de 2000. Em 1999, o volume de intercâmbio (comercial), de US$ 1,5 bilhão, era o mesmo de 1985", diz Charles Tang.
Em 2003, a soma de importações e exportações brasileiras para a China já era de US$ 6,68 bilhões e a tendência de alta se manteve neste ano.
Mesmo sem grande penetração no maior país da América Latina, a região responde por um terço das exportações chinesas.
Segundo Tang, esse cenário reflete um grande potencial de crescimento, já que o Mercosul "é uma das últimas fronteiras de mercado para a China".
Taiwan
As negociações entre Mercosul e China podem render um importante apoio para as aspirações brasileiras de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
"Quando apresentar formalmente sua candidatura, o Brasil deve receber o apoio da China. Em troca, a China deve pedir uma posição mais firme do governo brasileiro contra a independência de Taiwan", afirma o chinês radicado nos Estados Unidos Cheng Li, professor de ciências políticas da Universidade Hamilton, no Estado de Nova York.
O assunto tem importância nas relações comerciais do Mercosul com o gigante asiático, porque o Paraguai é um dos poucos países que tem relações diplomáticas com Taiwan, mas não com a China. Essas diferenças têm impedido o acordo comercial.
"A duração da visita (5 dias) é um sinal de que a China está dando mais atenção à América do Sul e principalmente ao Brasil", diz Cheng Li.
Além de Brasília, Hu Jintao passará por Rio de Janeiro e São Paulo, onde visitará o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), na cidade de São José dos Campos, reafirmando a parceria entre os dois países no setor.
A visita também deve ser marcada pelo anúncio de investimentos chineses em infra-estrutura, principalmente portos, ferrovias e geração de energia, e acordos comerciais.
O Brasil espera que a China abra seu mercado de carne. Especialistas avaliam que ele seria, no mínimo, equivalente ao da Rússia, o maior importador de carne brasileira.