10 de novembro, 2004 - 00h56 GMT (21h56 Brasília)
Edson Porto
enviado especial a Ramallah
Analistas palestinos ouvidos pela BBC Brasil duvidam que eleições para presidente possam ocorrer rapidamente nos territórios ocupados após a possível morte de Yasser Arafat, apesar de a Lei Básica palestina estabelecer claramente o que viria a seguir.
Nessa caso, o presidente do Conselho Legislativo Palestino (CLP), que está subordinado à Autoridade Palestina (AP), assume o posto de presidente e convoca eleições para depois de 60 dias.
O atual presidente do CLP chama-se Rawhi Fattouh, um político de pouca expressão, segundo vários analistas políticos – e essa pouca expressão de Fattouh, em si, já seria um problema numa eventual sucessão.
"Acredito que ele pode nem terminar os 60 dias de seu mandato", afirma Aref Hijjawi, analista e diretor do Instituto de Mídia da Universidade de Birzeit, a maior dos territórios ocupados.
Permissão
A segunda e, possivelmente, maior dificuldade, seria organizar eleições gerais em um prazo tão curto e em meio a uma situação política e de segurança delicada.
Os territórios palestinos estão sob o controle de Israel desde o início da intifada (a revolta palestina), em 2000, e os palestinos precisariam que os israelenses permitissem que o processo ocorresse sem problemas.
Além disso, os próprios palestinos acreditam que a situação pode se mostrar muito complexa para que as eleições sejam realizadas em breve.
A única vez em que os palestinos tiveram uma eleição geral foi em 1996, quando Arafat e os membros do CLP foram eleitos. A diferença é que, naquele período, boa parte dos territórios palestinos estava sob o controle dos palestinos e o único problema ocorreu em Jerusalém, onde o controle era israelense.
Na cidade, a logística da eleição foi complicada, e as pessoas tiveram que votar pelo correio.
Hamas
Outro problema é que uma eleição livre deverá pressupor a possibilidade de que qualquer grupo palestino apresente um candidato.
Isso pode significar que mesmo grupos como o Hamas – um dos principais responsáveis por atentados em Israel – apresentem um concorrente ao cargo de presidente. A dúvida é o que Israel faria diante dessa possibilidade.
"Acho muito difícil que as eleições possam ocorrer rapidamente", diz Abdallah Abu Eid, professor e especialista em leis palestinas.
Para Abu Eid, a complexidade da realidade palestina atual pode ser usada pelos novos líderes para justificar o adiamento das eleições e a determinação de um novo presidente.
Na avaliação do especialista, é possível que membros da atual Autoridade Palestina (AP), do partido de Arafat, o Fatah, e da Organização da Libertação da Palestina (OLP) acabem escolhendo um novo líder de forma indireta.
"Essa é a possibilidade é a mais provável", diz Abu Eid.
Apesar disso, os analistas concordam que é cedo para ter certeza sobre como irá se desenvolver de fato a sucessão de Arafat caso ele morra.